02/01/10

Natal em Pushkar

2008 em Nagercoil, 2009 em Pushkar... É o meu segundo Natal consecutivo na Índia... Ao contrário do Natal do ano passado, aqui em Pushkar, província do Rajastão, parece um dia exactamente igual a todos os outros... Não existe qualquer indício que lembre vagamente sequer que se trata da noite de 24 de Dezembro.
Nagercoil (onde estava há um ano atrás) fica na província de Tamil Nadu, a província mais a sul do país, e a população é maioritariamente cristã, por isso, apesar do calor, sempre havia algum espírito natalício no ar. Lembro-me que me aconteceu algo extraordinário nesse dia. Tinha conhecido um rapaz na paragem do autocarro uns dias antes (aliás, tinha-lhe pedido umas informações sobre o autocarro e depois conversamos durante uns minutos) e na véspera de Natal esse rapaz (praticamente desconhecido portanto) deixou-me um bolo de Natal na recepção do hotel (um "bolo de Natal" era um bolo pequenino normal, com umas letrinhas a dizer feliz Natal em cima). Fiquei emocionada! Foi, aliás, o único presente de Natal que recebi nesse dia, acho que nunca me vou esquecer.
Infelizmente em Pushkar não há bolos de Natal. É uma cidade até bastante turística (confesso que vim um pouco ao engano... a descrição é tão boa que toda a gente cá vem parar, talvez demais...). É também uma cidade de peregrinação, uma vez que se trata do único local na Índia onde é venerado o deus da criação, Brahma. Nas margens do lago sagrado de Pushkar (que está seco porque não chove aqui há 2 anos) é proibido andar calçado, beber álcool, consumir comida não vegetariana (a comida é estritamente vegetariana em toda a cidade), transportar objectos de pele e mais algumas regras de comportamento escritas e repetidas em vários locais. É um local com uma vibração um bocado estranha, na verdade. E demasiado turístico para meu gosto, de longe. Acho que a coisa que mais gosto aqui é que o céu está sempre cheio de papagaios de papel, que parece ser a brincadeira preferida das crianças nos terraços.
Pushkar é a terceira cidade que visito no Rajastão. A primeira, Jaisalmer, em pleno deserto também era uma cidade bastante turística, mas com bastante mais charme apesar de tudo... Jaisalmer, uma cidade fortificada, é também conhecida como a cidade dourada, porque ao pôr do sol, as casas e a fortaleza cor de terra, adquirem tonalidades douradas fabulosas. Parte da cidade encontra-se exactamente dentro da fortaleza (a parte mais turística) mas a cidade estende-se bastante para além disso.
Por alguma razão, já há muito tempo tinha vontade de visitar Jaisalmer. Todo o Rajastão, aliás, mas Jaisalmer em particular... não sei bem se por ser no meio do deserto ou se apenas porque o nome me soa bem (inclinar-me-ia mais para a segunda hipótese, tenho uma atracção inexplicável por locais cujo nome é uma palavra que me soa bem, embora as paisagens do deserto também me fascinem cada vez mais). Seja como for, Jaisalmer despertou em mim um sentimento um pouco misto... se por um lado é fascinante, por outro lado, é uma cidade muito turística também, com lojas em todas as esquinas, pessoas que vêm simpaticamente falar connosco para depois nos impingirem os produtos das suas lojas, em todos os cantos, sempre pessoas a chamar à porta dos estabelecimentos comerciais, hotéis, agências de turismo e restaurantes... um pouco no limite! No primeiro dia que passeei pelas ruas dentro da fortaleza, fiquei quase com cãibras na cara por estar
constantemente a sorrir para recusar todas as ofertas com diplomacia...


Jaisalmer valeu sobretudo pela excursão ao deserto. Dois dias a camelo e uma noite ao relento, em pleno deserto... Muito frio (mas não tão frio como no Turquemenistão, a última noite que tinha passado no deserto), um jantar delicioso, uma fogueira quentinha, boa companhia, a música dos camelos a ruminar a noite inteira quebrando o silêncio profundo... Todos os ingredientes para uma noite perfeita... Ainda assim vi várias estrelas cadentes e pedi alguns desejos... :-)


Duas francesas e um japonês acompanharam-nos nesta excursão (continuo com o Filip, o meu amigo checo). 5 camelos no total e 3 cameleiros/guias/cozinheiros (um dos quais, um miúdo com uns 12 anos... o trabalho infantil é visível em todos os sectores, infelizmente... o mais triste, é que a grande maioria destes miúdos vive em pequenas aldeias no deserto sem nunca ter oportunidade de ir à escola, por isso grande parte das pessoas que trabalham no sector do turismo, incluindo nos hotéis, não sabe ler nem escrever... é um bocado impressionante ouvir rapazes de 20 e poucos anos a dizer isso).


O camelo que me coube em sorte era o camelo mais velho do grupo, com 12 anos... A esperança de vida média de um camelo é cerca de 25 anos, por isso o meu camelo, de meia idade, era o único com permissão para andar "sozinho" (os outros andavam em caravana, mas no caso do meu podia ser eu a pegar nas rédeas... teve piada até ao momento em que outros camelos passaram pelo meu a correr e ele decidiu correr um pouco também... precisamente o momento em que eu tinha pegado na máquina fotográfica e tinha as mãos ocupadas, pensei que ia ser o fim :-) Excelente forma de quebrar a monotonia do deserto...
Em Jaisalmer descobrimos um cinema, por isso numa das noites o programa foi bollywood, em hindi, sem legendas. Pode parecer estranho, mas na verdade mesmo sem entender nada dos diálogos, dá para entender grande parte do enredo porque os actores são muito expressivos (se já viram algum filme de bollywood, percebem o que quero dizer). A sala do cinema era gigante e consoante o lugar havia diferentes preços de bilhetes: o nosso custou 15 rupias, o que equivale aproximadamente a 25 cêntimos de euro (mas ainda havia bilhetes mais baratos). Para alem de nós estavam mais umas 12 pessoas no cinema e um grupo de rapazes ao nosso lado que nem sequer parecia muito interessado no filme porque só conversavam (alguns virados de costas para o ecrã inclusivamente). Foi giro, fartámo-nos de rir com a história - um herói, muito macho, que arrasa todos os maus, traficantes e falsificadores de dinheiro que se atravessavam no seu caminho apaixona-se por uma miúda, que faz o sol brilhar nos dias de chuva assim que põe um pé fora de casa; no final descobria-se que o pior mau era na realidade o próprio pai do herói (apenas um padre sabia a verdade) e a miúda, apesar de tentar combater a paixão com todas as suas forças acabava por sucumbir ao charme (muito charme) do herói. Muito, muito bom!
A Jaisalmer seguiu-se Jodhpur, a cidade azul. Jodhpur distingue-se pela sua fortaleza magnífica, que parece inconquistável no topo da colina que domina a cidade. Grande parte das construções têm um terraço decorado de mosaicos no topo e têm as paredes pintadas de azul, tornando algumas zonas da cidade numa mancha de reflexos azuis quando se observa desde a fortaleza... ao por do sol fica mágico...



Acabamos por decidir demorar-nos em Jodhpur mais alguns dias do que o inicialmente previsto... (que é basicamente aquilo que tem acontecido em todas as cidades que visitamos no Rajastão, começamos por dizer 2 ou 3 dias e depois vamos ficando a preguiçar...). Descobri um café local junto ao mercado onde servem um lassi (batido de iogurte) típico da região: makkania lassi (que em vez de ser um simples batido de iogurte e fruta é perfumado com especiarias, açafrão principalmente, e muito doce – delicioso!). Claro que passei a fazer uma visita diária à hora do pequeno almoço (aquele ritual que eu gosto, quando os senhores já me conhecem e trazem logo aquilo que quero sem perguntar... :-): makkania lassi e hawa kachori (na foto).


O nosso hotel em Jodhpur tinha um terraço com vista sobre a fortaleza por isso também fiquei muitas vezes por ali, a ler e a trabalhar, sem pressas... Ao final da tarde, subida ao topo da colina e encontro marcado com o por do sol na fortaleza.
No mercado de Jodhpur comprei 2 sarees ("vestido" tradicional das mulheres na Índia, que não é mais do que uma tira de pano muito comprida que se enrola em volta do corpo). Pedi às senhoras do mercado que me ensinassem a compor o saree foram-se juntando pessoas em volta a dar a sua opinião (a opinião unânime de todas as senhoras que passavam na rua era de que me ficava muito bem :-) Não me parece que tenha aprendido adequadamente (parece super básico, mas tem uma maneira especifica e dobrar, senão fica uma trouxa), mas acho que devo conseguir ajuda quando finalmente me decidir a vesti-los. É engraçado porque muitos indianos dizem que pareço indiana (ficam na dúvida, mas mais por causa do estilo), com um saree imagino que me vão começar a falar em hindi. Ainda não tenho fotos com o saree, mas ficam prometidas para a próxima...

Embora tenha começado este relato no dia de Natal, entretanto os dias foram passando e já estamos em 2010. Por isso aproveito a data especial para vos dizer que uma das minhas resoluções de Ano Novo é ser mais assídua nos meus relatos a partir de agora... Feliz 2010 e até (muito) breve! :-)

8 comentários:

  1. Feliz Ano 2010 também para ti.Com que então um camelo espertalhão que espera que tenhas a máquina fotografica na mão para dasafiar a monotonia do deserto...conseguiu!!!!hehehe!
    A tranquilidade mantem-se e o bem estar transparece nas tuas palavras mesmo imaginando a tua cara cheia de caimbras :-D. Um beijinho aos pintainhos.

    ResponderEliminar
  2. e já agora, como é esse batido de iogurte com especiarias?sabes a receita?

    ResponderEliminar
  3. Não, mas posso tentar saber... se me revelarem o segredo... aqui em Bundi tb há um lassi muy bueno... hmmm... Beijitos e bom 2010 a toda a família :-)

    ResponderEliminar
  4. Ora viva!
    Recebemos o teu simpático postal e ficamos muito, muito contentes... ok o Tomás não está verdadeiramente incluído porque ainda nem o viu, ihihih
    Espero que tenhas passadoum bom Natal e que o ano de 2010 seja ainda melhor que o que passou.
    Beijos
    Teresa

    ResponderEliminar
  5. fico desejando ver-te de sari.
    boas viagens e bons encontros para 2010
    Bjs
    tia Zé

    ResponderEliminar
  6. vou copiar-te e faço a mesma resolução para 2010: ser + assídua no teu blog e nos comentários e mails :-)

    beijinhos, excelente 2010! (com o desejo que também passes uns tempinhos connosco) ;-)

    >Margarida

    ResponderEliminar
  7. Mariana, tens sido tópico constante pelos nossos lados. Vos desejamos um ótimo 2010 e muitos relatos.

    Bjinhos

    Jerusa & Marco

    ResponderEliminar
  8. Oi linda adorei o postal !!! Ele já se encontra no meu cantinho de viagens !!
    Bom ano 2010 !!!
    Bjo

    ResponderEliminar