13/01/10

De Udaipur...

Hoje sinto-me especialmente bem... começando porque adoro a cidade onde estou – Udaipur, uma das cidades mais importantes da província do Rajastão e que eu imaginava ao estilo de uma grande cidade da Índia (caótica, poluída, suja, barulhenta), mas não. Deve ser mesmo a cidade mais limpa que visitei nos últimos tempos (na medida em que uma cidade indiana pode ser limpa, claro está, ou seja, não tem nada a ver com os padrões europeus, mas pelos padrões indianos é muito acima) e é muito, muito tranquila. Em segundo lugar, porque no local onde estou alojada há yoga todos os dias de manhã cedo e três dias seguidos a acordar com yoga começam a produzir os seus efeitos em termos de bem estar. E por último, porque tive um dia muito descontraído, a passear pelas ruas da cidade, pelos mercados, pelas margens do lago e estou precisamente agora numa esplanada com vista para o lago a olhar para o reflexo dos edifícios iluminados e a pensar na imensa sorte que tenho em estar aqui.

Da última vez escrevi sobre Pushkar... tenho de confessar que fui um pouco injusta com esta cidade. Do meu relato certamente ficaram com a impressão de que não era um local nada simpático, por ser muito turístico. É de facto muito turístico, mas os últimos dias que passei em Pushkar reverteram a minha (má) opinião. No dia em que estava a começar a ficar farta de responder a saudações em hebreu pela rua (pequena nota: em todos os locais mais turísticos na Índia existe um número considerável de turistas israelitas e por alguma razão toda a gente pensa que sou israelita...) e que tinha decidido que me ia embora, fomos dar uma volta de bicicleta até a um templo a poucos quilómetros da cidade. Aquilo que começou por ser uma simples voltinha de bicicleta durante o dia (eu, o Filip e a Catrin, uma sueca que entretanto se juntou a nós), acabou por se converter numa noite passada no templo, que foi também uma das experiências mais fantásticas que tive no Rajastão. O Alo Baba (intitulam-se "baba" uns ascetas, como há muitos pelo Rajastão, que vivem isolados em templos ou pequenas casas, longe da agitação das cidades; as pessoas visitam-nos para pedir conselhos, para conversar, para solicitar algumas bençãos, esse genero) que fomos visitar, acabou por nos convidar a ficar para jantar e pernoitar no templo (depois do por do sol também não havia luz suficiente para voltarmos de bicicleta, para além de que o pneu da minha furou... mas nada acontece por acaso). Ajudamos a preparar um jantar delicioso, jantamos e acabamos a noite a olhar para as estrelas num daqueles locais onde não se vislumbra qualquer outra luz senão a do céu, enquanto escutávamos alguns ensinamentos sábios. Talvez não vos pareça nada de extraordinário, mas aquela noite no templo e o nascer do sol no dia seguinte naquele lugar um pouco mágico trouxe-me uma enorme paz interior. Para além disso, reconciliei-me com Pushkar (ficaríamos um dia mais; em baixo, uma vista do lago... seco...).


De Pushkar fomos para Bundi, num autocarro local onde tivemos a enorme sorte de ir sentados na cabine do motorista (o melhor lugar do autocarro portanto, com imenso espaço). Como são muitos, os indianos tendem a andar colados uns aos outros e os autocarros não têm limite, cabe sempre mais alguém (estou a falar dos autocarros comuns, não dos de luxo para turistas), sendo que um banco duplo, por exemplo, é ocupado no mínimo por 4 pessoas. Mas o que é mais extraordinário nem é isso, diria mesmo que isso é normal dada a densidade populacional. O mais extraordinário é que quando vaga um banco, imaginemos, à frente de um lugar duplo ocupado por 4 pessoas, essas pessoas não vão ocupar o lugar vago e preferem continuar assim mesmo (já me aconteceu ser uma das 4 pessoas, mas espalmada contra a janela, e acham que algum dos outros se mexeu para ir ocupar o banco vazio?? É inacreditável, parece que gostam de ir apertados, é um traço cultural, não sei...). Portanto nessa viagem para Bundi, tivemos mesmo imensa sorte, com espaço para as mochilas e para nós. Para além do motorista super bem disposto, que só se ria connosco e que ia visivelmente divertido a conduzir por aquelas estradas estreitíssimas, sempre com a mão na buzina (na Índia a regra é buzinar o tempo todo, inclusivamente os camiões têm escrito na parte de trás "buzine sff", não sei muito bem para quê, porque como todos buzinam, parece-me que ninguém presta atenção a mais uma buzina, mas o pessoal entende-se assim).

Bundi é uma cidade pequena também, muito engraçada porque tem um laguito (este com água, ao contrário do de Pushkar, se bem que a água era bem verde), um palácio do marajá (que, imaginem, faleceu justamente enquanto eu lá estava, grande acontecimento, o desfile do caixão pelas ruas...), uma fortaleza (enorme e cheia de construções meias abandonadas por dentro... foi unânime a opinião de que daria um excelente cenário de paintball).



Ficamos numa guesthouse que ocupa o espaço de um antigo estábulo de elefantes, anexo ao palácio (Elephant Stable, portanto).
Na nossa segunda noite em Bundi celebrava-se o aniversário do dono da guesthouse (Rahj) por isso tivemos festa indiana e estreei o meu saree... :-) Claro que já não sabia dobrar e tive de pedir ajuda mas fiz um enorme sucesso, não estão bem a ver...


No dia seguinte era o dia 31 de Dezembro. Eu, o Filip e a Catrin organizamos uma mega festa de fim de ano no Elephant Stable. Fizemos convites, recrutamos convidados, alugamos um sistema de som... O Rahj tratou da comida (semelhante à da véspera, um thali rajastani, que é uma refeição completa com arroz, vários molhos, chapati do Rajastão e uma sobremesa, tipo arroz doce)... acho que foi uma das passagens de ano mais divertidas dos últimos anos (especialmente tendo em conta que 2009 se tinha iniciado em excelente companhia e também na Índia, mas ainda assim dentro de um autocarro... ;-)


A nossa festa foi a melhor da cidade, claro, e imaginem que até aparecemos na primeira página do jornal local no dia seguinte (o fotógrafo da cidade foi à nossa festa e instruiu-nos para que fizéssemos um pequeno número para ele fotografar... tudo a dançar, super divertidos... foi demais!). Mas bem, este é o resultado (na foto de baixo, em pormenor, eu à direita, vestida de verde, de mãos no ar).



Toda a gente tem direito aos seus minutinhos de fama uma vez na vida... os meus foram aqui, no jornal local de Bundi, no dia 1 de Janeiro de 2010. Parece que há um provérbio checo que diz que aquilo que fazemos no dia 1 de Janeiro, fazemos durante o resto ano... assim sendo, 2010 parece ter começado de uma excelente forma.

Entretanto os meus amigos Filip e Catrin seguiram viagem rumo a Goa, mas eu decidi prolongar a minha estadia em Bundi. Na verdade também não me apetecia viajar logo porque entretanto comi qualquer coisa (ou várias coisas) que me abalaram um pouco interiormente (poupo-vos aos pormenores, mas digamos que não é fácil passar uma temporada na Índia sem sucumbir a uma qualquer bactéria ou parasita gastrointestinal... as condições de higiene muitas vezes não são as ideais, mas para ser honesta, eu também como em qualquer barraquinha no meio da rua, aquela ideia da autenticidade... enfim, faz tudo parte da experiência...). Ainda tentei um medicamento ayurvédico, mas depois de uns dias de agonia (o medicamento ayurvédico era uma geleia com um sabor um bocado indescritível e que por si só me dava a volta ao estômago) acabei mesmo por ir visitar os meus colegas à farmácia tradicional...

Numa dessas ditas casitas no meio da rua em Bundi, o meu amigo Krishna dedica-se a confeccionar o melhor chai da cidade (sim, confeccionar, porque é uma arte, não se trata de colocar um pacote de folhas pré-preparado dentro de um bule com água quente, atenção!) O chá indiano (chai) bebe-se com leite e açúcar a qualquer hora do dia (eu também achava que nunca iria beber uma tal combinação, mas é excelente, principalmente quando lhe juntam algumas especiarias... no caso do Krishna, pimenta, cardamomo e muito gengibre... adoro quando juntam gengibre, acho que estou viciada, só bebo chá de gengibre agora também). Por isso, a visita ao "salão de chá" do Krishna e observar a sua arte converteu-se numa das minha etapas diárias.


Depois de 10 dias em Bundi (a cidade onde estive mais tempo desde que comecei a minha viagem há 3 meses atrás), não foi fácil desabituar-me destas minhas pequenas rotinas, mas Udaipur já chamava por mim...

12 comentários:

  1. Obrigado pelo relato, já tinha saudades de sair um bocadinho de Lisboa :-)

    ResponderEliminar
  2. Oh linda, como agora trocava a prisão por essa liberdade (a real, a outra escolho sempre ficar com ela ;))... Tenho realmente saudades de sentir as pessoas vivas, a aproveitarem os momentos. Aqui ficam os queixumes do costume, a culpa do tempo, do governo, dos outros...ai tenho saudades de ter saudades de Portugal
    A ver se nos encontramos em breve, a minha bússula continua a trabalhar para sul. beijos grandes da familia dos prazeres santos :D

    ResponderEliminar
  3. Marianinha Querida,
    Obrigada...
    O gengibre é excelente. Tem grandes propriedades, tb sou fã do gengibre :-)
    Continua em paz pela tua caminhada...e que a tua estrelinha(aquela que te acompanha no silencio) te guie..
    bjs dos 4.

    ResponderEliminar
  4. Então tu vestes um sahri todo giro e depois estás com um sapato de cada nação? Pelo menos é o que parece na foto :)
    Adorei a cena do jornal. Estas coisas incríveis só acontecem quando saímos da nossa "comfort zone" e é tão bom! Mts beijinhos!

    ResponderEliminar
  5. Este início de ano começou de forma contraditoriamente espantosa! Da festa exteriorizada pelo jornal... passando pelo interior, revelando o outro lado! Isto promete. Que a Harmonia se instale através dos opostos ao longo de 2010! A LUZ está contigo. Lena B

    ResponderEliminar
  6. aprende a fazer o chai do teu amigo Krishna, que depois vais ter que "competir" com o chá do deserto :-)

    com os filme e a passagem de ano também já deves saber umas coreografias de bolywood eheheh

    * * *
    >Margarida

    ResponderEliminar
  7. Que bom, tantos comentarios... gosto disto :-) Obrigada, e um incentivo para continuar!
    (ja agora convido os "anonimos" a sairem do anonimato qdo comentam sff... isto e para o primeiro comentario)

    Ines: os sapatos eram iguais, realmente na foto parece diferente... mas asseguro-te q era o mesmo par (nessa altura ainda nao tinha bebido nada... :-)

    Margarida: vou tentar aprender a arte do cha nos varios cantos do mundo... (gosto do indiano que e ainda mais doce do que a segunda leva do deserto... :-)

    ResponderEliminar
  8. Continua, porque apesar do anonimato gosto das fotos e dos relatos :-)

    ResponderEliminar
  9. Que linda indiana tu estás !!!
    Agora tambem já somos RP de uma guesthouse com direito a capa de jornal, bela forma de entrar no ano !
    Felicidades e continua "iluminada" !
    É bom vijar contigo.
    Bjo

    ResponderEliminar
  10. Que bom ler-te e ver-te!... E então vestida de sari... não me admira que te possam confundir com uma indiana.
    bjs grandes
    Tia Zé

    ResponderEliminar
  11. Não são todos os anos que se começam como destaque de primeira página!
    ...mas o que dirá aquela legenda da tua fotografia?... será qualquer coisa do tipo:

    "Judeus (hebreus) vêm festejar a passagem do ano (cristão) com os hindus em Pushkar"

    :)

    Vivam os passeios, a globalização e a saudável convivência inter-cultural/religiosa!

    São também os votos para 2010!

    GL

    ResponderEliminar