Pelo sexto dia consecutivo, o Nepal está mergulhado numa greve geral. A greve, com duração indefinida, foi convocada pelos maoístas (um dos vários partidos comunistas que compõem o espectro político nacional, mas que apesar das semelhanças ideológicas não se conseguem entender), que reclamam a demissão do primeiro ministro e a dissolução do governo. Os maoístas têm o apoio de (ou, pelo menos, conseguiram recrutar) parte da população rural, que se deslocou a Kathmandu para participar nos protestos – uma romaria de bandeiras vermelhas e pouco entusiasmo. Na base dos protestos está, entre outras coisas, a constituição do país que supostamente deveria estar terminada e ser promulgada em breve (28 de Maio) mas que não consegue o consenso dos principais partidos envolvidos (o contexto político no Nepal é um pouco confuso).
Trata-se de um protesto pacífico, mas os maoístas estão atentos, assegurando a adesão total à greve que não tem para já qualquer data final prevista (já ouvi dizer que poderá durar 10 dias ou mais, o que não seria inédito por estas paragens...) Só será desconvocada quando for conseguido um acordo entre maoístas e os outros dois principais partidos no governo (e do ponto de vista dos maoístas esse acordo será a demissão do primeiro ministro e a constituição de um governo provisório de unidade nacional. Só após a promulgação da constituição existirá uma base politica para permitir a convocação de novas eleições). Como me explicava ontem o gerente do hotel onde estou alojada em Kathmandu: “todos os dias no telejornal vemos os dirigentes dos 3 principais partidos a sair de um hotel de 5 estrelas onde estiveram reunidos, de onde saem com a notícia de que ainda não chegaram a nenhum acordo e que o diálogo prosseguirá nos próximos dias...” Entretanto, a greve continua e o país está completamente paralisado.
Com esta “adesão forçada” assegurada, todos os estabelecimentos estão encerrados e as estradas cortadas. As ambulâncias são os únicos veículos cuja circulação é permitida (para além dos veículos que transportam maoístas, claro). As farmácias estão abertas (tal como clínicas e hospitais) mas para o resto do comércio a única excepção é uma breve abertura 2 horas por dia (entre as 18 e as 20h). Durante o resto do tempo, parece uma cidade fantasma à excepção das principais artérias cheias de protestantes embandeirados e polícia de choque... (claro que há sempre formas de contornar estas situações... o estaminé local onde tomo o pequeno almoço e vou beber o meu insubstituível chá a todas horas do dia, funciona de porta fechada na maior parte do tempo; logo pela manhã quando entro geralmente estão de porta aberta, mas de repente, quando alguém anuncia uma suposta “patrulha maoísta”, eles fecham tudo e ficamos na clandestinidade). Evidentemente que esta situação tem consequências graves para o comércio, muitas lojas e restaurantes nem sequer abrem nestas 2 horas porque é precisamente o tempo que têm também para fazer as compras necessárias para poder funcionar, fica tudo muito limitado. Por isso algumas associações de comerciantes organizaram hoje de manhã uma marcha pacífica a pedir paz e o final da greve... a sociedade civil começa a ficar um pouco cansada destas politiquices que não resolvem de forma alguma a crise em que o país está mergulhado.
Cheguei a Kathmandu há poucos dias num autocarro “especial para turistas” que saiu de Chitwan, um parque nacional no sul do país. Em Chitwan fiz uma caminhada de 2 dias pelo parque; apesar de ter visto alguns animais engraçados no seu habitat natural (sobretudo insectos e pássaros, mas também duas espécies diferentes de macacos, algumas espécies de antílopes, javalis, elefantes e uma das principais atracções do parque – rinocerontes... Dos tigres e dos ursos, apenas pegadas...), estava um calor húmido horroroso e peganhento que tornava difícil caminhar durante o dia (e era uma caminhada a passo lento, com muitas paragens para observar os animais, não estão bem a ver...). Se o primeiro dia já tinha sido sufocante, o segundo foi uma verdadeira tortura e a partir do meio da manhã esta sauna praticamente esgotou a minha paciência para ver quaisquer animais (eu própria já me estava a transformar lentamente em rinoceronte transpirado), só me apetecia regressar e tomar um duche fresquinho...
A viagem Chitwan-Kathmandu foi super tranquila, não nos cruzamos com outros veículos motorizados, apenas com pedregulhos e adeptos maoístas a bloquear a estrada em alguns locais, mas que se limitaram a retirar as pedras à nossa passagem. Há algumas excepções destas “para turistas” porque o Nepal depende seriamente do turismo; penso que mesmo os maoístas (apesar do seu desejo de criar instabilidade política) têm noção das possíveis e prováveis consequências graves de reter centenas de turistas durante vários dias nos vários pontos do país... os aeroportos estão em funcionamento, mas não é possível escoar todos os turistas pelo ar, até porque nem todos (como eu por exemplo) estão dispostos a pagar um bilhete de avião para uma viagem doméstica, tendo em conta que a situação não é grave a ponto de requerer uma saída imediata do país.
Tal como uma viagem no Nepal pode ser rápida, atendendo ao estado deplorável das estradas, percorremos os 160 km que separam as duas cidades em 4 horas e apenas à chegada a Kathmandu nos deparámos com uma massa de protestantes (que aplaudiam o autocarro e acenavam entusiasticamente as bandeiras) que dificultou um pouco o acesso ao centro. Tudo muito pacífico. Entre a multidão imaginem que até vi uma camisola da nossa selecção! (vários nepaleses já me disseram que eram apoiantes da selecção portuguesa).
Os cortes de electricidade duram agora menos horas por dia em Kathmandu (imagino que como está tudo encerrado, o consumo é substancialmente menor e podem manter a distribuição durante mais de 12 horas como quando estive aqui há 1 mês atrás), mas não deixa de ser estranhíssimo estar numa cidade meia encerrada durante tantos dias seguidos. Tinha programado fazer umas caminhadas no vale de Kathmandu, pelas aldeias aqui em volta, mas apesar de ser tudo relativamente perto, é ainda assim demasiado longe para começar a pé a partir daqui, até porque não me restam muitos dias (tinha planeado um percurso giro de 3 dias, mas teria de ir de autocarro até ao ponto de partida, a mais de 30 km de Kathmandu e não há autocarros, nem táxis, só mesmo se fosse de ambulância :-) Por isso decidi visitar apenas as atracções mais perto e deixar as restantes para uma próxima visita ao Nepal.
Ontem fui a Patan, que se situa a sul de Kathmandu, a cerca de 8 km do centro, suficientemente perto, portanto, para ir a pé. Na verdade, esta cidade está colada a Kathmandu, o caminho é sempre pela cidade, só está separada fisicamente por um rio. Patan é muito bonitinha (tal como o centro de Kathmandu, também é classificada como património mundial pela UNESCO, mas na minha opinião Patan tem mais charme e está mais bem preservada) e tem dezenas de templos (hindus e budistas) a visitar. Valeu a pena, apesar da forte chuvada que me apanhou (e ensopou) no regresso.
Hoje passei a manhã com a cabeça mergulhada nas edições dos jornais dos últimos dias, para tentar perceber melhor o que se passa (e mesmo assim, ainda não consegui entender muito bem). Mas de facto não há muito mais para fazer numa cidade completamente em greve. Não me importo muito porque passo os dias a ler (hoje tenho de aproveitar as 2 horas em que as lojas estão abertas para reabastecer o stock de livros, para além de utilizar a internet para actualizar o blog, tem de ser tudo programado ao minuto!); já que tenho de estar aqui retida por mais uns dias, pelo menos tentar tirar o melhor partido da situação :-) Nem tudo é mau, o ar de Kathmandu está limpo como nunca... nada como 6 dias consecutivos de greve para dissipar a poluição atmosférica de uma das cidades mais poluídas do mundo. Nem sequer estou ansiosa por sair daqui; na verdade, o meu próximo voo, no dia 10, tem como destino a Tailândia... e no que respeita a protestos, a situação em Bangkok também não é das mais famosas neste momento... (é preciso ter pontaria!)
Termino com um toque de gastronomia nepalesa. Este é o meu pequeno-almoço no dito café da esquina (onde já conheço a portinha lateral para entrar quando está de porta fechada por causa da greve... ser cliente habitual tem as suas vantagens): chá com leite (na terminologia local: tchiá), chamuça (samosa) e tsona, uma especialidade local que descobri recentemente e que não é mais do que uma salada de grão, um bocadinho picante e deliciosa... Outra das vantagens de estar retida – tempo para provar (e fotografar) toda a panóplia gastronómica local :-)
:-)...








Quando disseste "e' preciso ter pontaria" nao consegui deixar de pensar que isto e' mais comum do que se pensa. Qd fui a Floripa calhoiu justamente quando houve o maior apagao de que ha memoria na ilha: 10 dias 'as escuras... e com chuva, para ajudar. Agora no Rio, chegamos la justamente quando as inundacoes comecaram e houve deslizamentos de terras. O Cristo estava incessivel e em obras, a lagoa trasnbordava de lama, as praias com o mar de ressaca... o caos. E' preciso ter pontaria :P
ResponderEliminarE o livro, ja leste? Imagino que sim, com tanrta leitura... que achaste? Desiludia? Espero que não :)
http://www.youtube.com/watch?v=CNMiA8JnjNU
ResponderEliminarGlad to hear that you are riding out the strike okay. That's so awesome that you got to see rhinos! Thanks for adding our blog to your site. We will have to catch up on reading your blog once we have more time. Happy travels!
ResponderEliminarOlá Mariana,
ResponderEliminarcomo está correndo a tua viagem? Já tem um bom tempo que nao atualizas o blog.
Bjinhos
Jerusa e Marco