Sabem aqueles dias cinzentos, chuvarentos e abafados que nos deixam completamente moles e em que só conseguimos imaginar uma boa chuvada para refrescar a nossa existência embaciada? Pois bem, foi assim a manhã deste feriado de 8 de Dezembro em Díli.
O dia amanheceu razoavelmente fresco, como é habitual (aproveitei para dar a minha voltinha de bicicleta, que não dispenso, tal como nos velhos tempos) mas passei a manhã com essa sensação peganhenta de trovoada que se aproxima (para além de um corte de electricidade que me deixou sem ventoínha parte do tempo e mais peganhenta ainda). Saí para almoçar e quando voltei só me apetecia dormir. Encostei-me a ler e acordei pouco tempo depois já ao som da chuva misturado com cheiro a terra molhada... (estou a romantizar um pouco, na verdade de vez em quando o rumo da brisa estraga o meu lindo cenário e esse cheiro a terra molhada fica temperado de aroma de curral, aqui mesmo ao lado...). Mas gosto deste contacto com a natureza. Desde que mudei de casa, há 2 semanas, tenho o privilégio de acordar todos os dias antes das 6 da manhã ao som do maior concerto de galos de que tenho memória. Não é por acaso que há tantos galos nas redondezas - uma das actividades que ainda se pratica aqui em Timor são as lutas de galos e tenho também o privilégio envenenado de imaginar que metade dos galos que enchem de música as minhas manhãs, se debicam furiosamente uns aos outros à tarde, no recinto aqui em mesmo frente, perante os gritos entusiásticos dos apostadores.
Apesar das várias vantagens de estar a viver mais no meio da cidade, voltarei a (re)mudar-me em breve para mais uma temporada na pacata casa azul, com vista para o mar.
Comecemos então o capítulo Baucau...
Este poema está afixado no recinto de uma das escolas de Baucau, mesmo junto à catedral. Fez-me sorrir muito :) :) :) e apeteceu-me partilhar convosco (apesar da péssima qualidade da foto, meia cortada).
Baucau é a segunda cidade mais importante de Timor-Leste e dista de Díli uns 130 km para este. Também fica na costa, pelo que parte do percurso é feito mesmo junto ao mar, por uma estrada que adoro, apesar de continuar em não muito bom estado (aos nossos padrões, claro, até deve ser uma das melhorzitas por aqui - isso significa uma estrada pavimentada com uma faixa para cada lado, sem bermas, sem sinalização e com alguns buracos). Mas continuo a adorar. O percurso até Baucau leva (de carro) cerca de 2,5 horas.
Parte do meu trabalho de investigação aqui (que consiste basicamente em visitar hospitais, centros de saúde e farmácias para verificar a disponibilidade de alguns medicamentos) é feito nos distritos e Baucau (depois de Díli) foi o primeiro que visitei.
Baucau é uma cidade bastante diferente de Díli. É uma cidade mais verde, o clima é um pouco mais fresco (menos quente, digamos assim), é bastante mais pacata (o trânsito não se compara com Díli, nem táxis existem!) e está naturalmente dividida numa "vila velha", na zona mais baixa da cidade onde subsistem vários edifícios coloniais (como o velho mercado na foto em baixo) e numa "vila nova" numa zona mais alta da cidade. Descendo ainda mais um pouco a partir da vila velha, por uma estrada que também adoro, pelo meio de árvores centenárias com lianas penduradas (que me trazem à memória as florestas das histórias encantadas), chegamos à praia.
(os grafitis na parede do mercado são alusivos ao Tour de Timor, cuja terceira edição foi este ano. Por curiosidade acabo de ver que as inscrições para a edição de 2012, 10-15 Setembro, já estão abertas. Coincidirá com o 10º aniversário da independência do país. Para os mais corajosos... http://www.tourdetimor.com/ :-)
Quando cheguei a Baucau (dia 29 de Novembro) tive a sorte de conhecer de imediato o Director dos Serviços de Saúde distritais (quase por acaso) que me disse que no dia 1 de Dezembro se celebraria o Dia Mundial da luta contra a SIDA (como em todo o lado) e que as principais comemorações este ano seriam em Baucau, pelo que todos os chefes dos centros de saúde estariam ocupados com os preparativos e não valia a pena tentar visitá-los. Isso significava, pensei eu nesse momento, que me sobraria um único dia para fazer os contactos e visitar os centros de saúde espalhados pelo distrito, pelo que não daria tempo para tudo e teria de regressar a Baucau mais tarde para terminar (ou seja, que a viagem tinha sido meio fiasco). Só que o senhor ficou tão satisfeito por me ver ali a espremer-me no meu tétun macarrónico (mas ele também falava português) que tocou numa campaínha e eis que entra alguém com um convite VIP em meu nome para o dito evento! Pensei "quando se fecha uma porta, abre-se uma janela" pelo que decidi aproveitar (mesmo que tivesse que regressar a Baucau, talvez tivesse a oportunidade de conhecer alguns dos chefes dos centros de saúde e poderia combinar directamente com eles para outra ocasião). Na verdade correu muito melhor do que tudo aquilo que eu poderia imaginar! Assisti religiosamente ao dito evento do início ao fim - religiosamente é mesmo o termo certo, porque começou por uma missa na catedral a que assisti também (enfim, assisti a um bocadinho...), depois discursos vários, um espectáculo de marchas e tambores de miúdos da escola, e no final um almoço. Durante esse almoço consegui de facto conhecer todas as pessoas que precisava, ficaram todos entusiasmadíssimos (aquelas escassas aulinhas de tétun fizeram milagres, metade destes não falava mesmo português) e consegui marcar mesmo todas as visitas para o dia seguinte. Portanto, missão 100% cumprida em Baucau!
Claro que todas estas minhas "sortes" extraordinárias contam sempre com pessoas extraordinárias que se cruzam pelo meu caminho. Entre as várias (porque são sempre várias) desta vez destaco o Dr Frans (à minha esquerda na foto). O Dr Frans é um médico holandês (de origens indonésias) que se reformou há algum tempo atrás e agora trabalha como voluntário da ONU na clínica da missão em Baucau. À minha direita, a Chandra, enfermeira nepalesa. Ambos foram meus colegas quando aqui trabalhei há 3-4 anos atrás. Para além do seu trabalho na clínica, o Dr Frans faz imenso trabalho na comunidade, até árvores planta! E o que é mais extraordinário é que se está sempre, sempre, sempre a rir, tudo está bem para ele, nunca se aborrece com nada. Completamente em paz com a vida, um verdadeiro exemplo, é impossível não ficar contagiado(a) pela sua energia fabulosa. Foi uma ajuda preciosa em Baucau, como ele dizia "porque também já fui estudante, sei bem como é, tenho todo o gosto em ajudar-te". Não deve ter sido por acaso que ganhou o prémio de "voluntário do ano" de 2011 (foi-lhe atribuído justamente enquanto eu lá estava). Só pelo privilégio do convívio com estas duas pessoas, já teria valido a pena ter passado aqueles dias em Baucau!







Minha querida, essas "sortes" extraordinárias" também só ocorrem a quem de alguma forma deu de si...a quem foi...quem tentou...quem bateu a muitas portas. ;)
ResponderEliminarBem as mereces.
beijo gd
tua
Nikas
já estive a estudar o tour... 6 etapas de poucas milhas (!), com percurso também no enclave e em terras indonésias... quem sabe não marco férias em Setembro :) um tour em BTT é o primeiro que vejo mas deve explicar-se devido à (má) qualidade das estradas... bom, mas tu podes ir fazendo o reconhecimento/treino in situ do percurso :)
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