Mas minha ideia hoje era redimir-me do meu atraso e contar-vos um pouco acerca dos 10 dias passados no Uzbequistão. Entre andar de umas cidades para as outras e uma gastroenterite (a bicharada uzbeque é agreste, nem o meu bifidus me salvou desta vez, mas já estou boa e pronta para a bicharada indiana :-) não tive muitas oportunidades para ir actualizando pelo caminho.
A visita ao Uzbequistão começou em Khiva que é uma cidade fortificada, mas convertida numa espécie de "cidade museu". Ou seja, tem imensas coisas lindas para ver, mas como cidade falta-lhe um toque de vida. Ficámos instalados numa guesthouse na zona dentro da muralha... Foi o melhor local onde ficámos no Uzbequistão, com as pessoas mais simpáticas, acolhedoras e o melhor pequeno-almoço (de longe). Para lá chegar foi uma aventura...
Tinhamos atravessado a fronteira do Turquemenistão sem problemas ao final da tarde depois da excursão ao deserto (ver relatos do Turquemenistão). O problema foi que quando chegamos à cidade mais perto da fronteira, Nukus, já era noite cerrada. Era suposto apanharmos um autocarro (que não sabíamos se existiria aquela hora) para Khiva, só que o taxista que nos trouxe do posto fronteiriço não percebia uma única palavra daquilo que dizíamos à excepção de dólares (foi isso que o fez levar-nos na mesma, até fez um desvio pelo caminho para apanhar um amiguinho, com os dólares que lhe pagamos até dava para convidar um amigo para ir beber uns copos à cidade :-). Como ele não percebia nada (nem palavras nem os nossos gestos a tentar imitar um autocarro), "depositou-nos" numa paragem de taxis (por estranho e descabido que possa parecer, no Uzbequistão as pessoas andam de taxis partilhado, mesmo para percorrer distâncias de 4 ou 5 horas entre as cidades). Como nós queríamos mesmo ir para Khiva (na verdade, eu queria passar o meu aniversário em Khiva e não em viagem) decidimos negociar então o preço de um taxi, com não sei quantos taxistas que não falavam uma palavra de língua nenhuma conhecida, isto no local mais escuro e descampado das redondezas. Mas negócio é negócio, mesmo num local assim, por isso fixamos o nosso preço, com um dos taxistas aos berros de mau hálito na nossa cara (literalmente) a dizer-nos um preço mais caro, acabamos por fechar negócio (ao preço que queríamos!) com um rapazito mais calmo... Mas esse ainda não era a pessoa que nos iria levar ao destino, tal como percebemos uns minutos mais à frente quando ele parou e nos indicou um outro carro que estava à espera com um casal uzbeque que ia para um local perto de Khiva e nos deu "boleia" (a optimização de recursos com vantagens para todos os intervenientes).
E eis-nos no carro de um casal de desconhecidos, a falar uma língua desconhecida, por estradas desconhecidas, a meio da noite, no meio do Uzbequistão. Após uns subornos a uns guardas (de vez em quando passavamos por um "posto de controlo" e o nosso condutor estendia uma notinha pela janela (tal como seria de esperar, a corrupção e os esquemas imperam por estas bandas), chegamos sãos e salvos ao destino (bem, ainda andamos às voltas à procura do hotel). Quando chegamos, o paraíso!! Uma casa familiar convertida em guesthouse onde nos receberam às tantas da noite com um sorriso e um chá com biscoitos :-) Ficamos maravilhados! Se alguma vez visitarem o Uzbequistão, Meros Guesthouse, em Khiva.
Tive um maravilhoso pequeno-almoço de aniversário, no dia seguinte também, tudo caseiro, incluindo o pão que coziam num forno ao lado da casa.
Pão caseiro, doce caseiro, um estufado de vegetais caseiro com um ovo caseiro... :-)
Ainda bem que era óptimo, porque tínhamos planeado um jantar especial num restaurante que tínhamos visto no guia. Não tinham menu, claro, por isso perguntamos o que havia e a senhora arranhava umas palavritas de inglês e começou a dizer os pratos todos com carne. Quando eu perguntei se tinha algum prato vegetariano, sem carne, ela disse qualquer coisa em uzbeque com a palavra batata no meio, pelo que eu percebi um prato à base de batata e disse que sim, toda contente. Na verdade, o meu jantar especial de aniversário foi um belo prato de batatas fritas! Pelos vistos era a única coisa sem carne... (o que a senhora tentou dizer foi "não tenho nada sem carne, mas posso fritar umas míseras batatinhas, serve?")
No dia seguinte fomos comprar o bilhete conjunto para visitar as atracções do local. Em geral no Uzbequistão, tem de se pagar um bilhete à parte para tirar fotografias. A minha técnica era guardar a máquina e dizer "então não tiro fotografias" (porque claro que depois ninguém controla nada disso, é só à entrada e obviamente que não ia pagar um bilhete extra, ou não fosse portuguesa... ainda por cima porque fica cerca do dobro do preço pelo bilhete). Mas aqui tivemos uma reacção inesperada por parte das senhoras que vendiam os bilhetes. Uma delas virou as costas e disse que então assim não me vendia bilhete nenhum porque eu era "obrigada" a pagar o suplemento das fotos que ela já me tinha visto a tirar fotos aos monumentos da cidade no dia anterior!! Era só o que faltava! (ou seja, se eu não quisesse pagar para entrar nos museus podia tirar fotos de borla no exterior, a partir do momento em que queria pagar para os visitar tinha também que pagar para fotografar por fora... se isto tem alguma lógica!) Então virei as costas também e disse que nesse caso não pagava nada (e acreditam que a mulher já vinha atrás de nós a abanar os bilhetes, que afinal não fazia mal? Mas não levou mais nada! Que grande lata!) Em geral, fomos sempre bem recebidos, com simpatia em todos os locais no Uzbequistão, estas foram mesmo as ovelhitas ranhosas...
Não vi museus nenhuns, mas as fotos até me souberam melhor... estas são dedicadas à senhora dos bilhetes :-)
Vimos uns 5 casamentos nesse dia em Khiva, deve haver uma tradição qualquer de casar em Khiva e dar algumas voltas às principais mesquitas com os convidados atrás, porque estavam sempre a passar várias vezes pelos locais onde iamos parando. Num dos casamentos, até fomos convidados a brindar em uzbeque aos noivos (com honras de aparecer nas fotos e filmagens com os copos de champanhe na mão... o momento alto do casamento, quando os noivos brindaram com os estrangeiros!) (o Pedro, de costas, a brindar com o noivo - a foto está esquisita porque a lente tinha apanhado um esguicho de champanhe...)
Depois da aventura do taxi, decidimos apanhar o autocarro local para ir para Bukhara, a cerca de 400 km de distância. Uma longa viagem de 9 horas num autocarro muuuiiito confortável (só para terem uma ideia, os bancos estavam irreversivelmente com as costas deitadas, todos, mesmo que quisessemos ir sentados eramos forçados a ir meios deitados...) Ao nosso lado, um casal de velhotes que transportava um gatinho dentro de uma caixa de cartão com uns furos, no compartimento em cima das nossas cabeças... felizmente o gato fartou-se de miar (no início pensamos que ia ser a nossa banda sonora por 9 horas) e eles acabaram por ter pena e tiraram-no de dentro da caixa.
A nota mais valiosa da moeda uzbeque (som) é de 1000 som. 1000 som equivalem a cerca de 0,40 €, agora imaginem as notas necessárias para pagar as coisas mais caras como uma viagem de autocarro (até porque eles nem sempre andam com notas de 1000). Por isso se justifica que no autocarro trabalhem, além do motorista, do assistente do motorista e do senhor que "recruta" passageiros à porta do autocarro (porque o autocarro só parte quando tem um número mínimo de passageiros, o que pode acontecer algumas horas após a hora prevista...), existe também um rapazito cuja função é "contador de notas" (anda atrás do assistente do motorista, recebe os molhos de notas, conta e coloca dentro do saco estendido pelo assistente de motorista). A cena mais gira foi quando houve uma breve paragem técnica, já à noite e o rapazito ficou "esquecido"... tivemos de parar um bocado à frente e o assistente de motorista saiu a correr com uma lanterna e foi buscá-lo lá atrás...
Em Bukhara ficamos numa outra casa familiar... O Sr. Nasrudin recebeu-nos de braços abertos e com um excelente jantar (ele próprio era o cozinheiro, há mais de 35 anos)... Apresento-vos um dos pratos mais típicos do Uzbequistão - o plov, que é um prato de arroz com cenoura e um tempero excelente (neste caso, vegetariano, mas pode ser com bocados de carne por cima)
Em Bukhara até tivemos actividade cultural :-) É uma cidade onde existe imenso artesanato, incluindo umas oficinas de marionetas. E há um espectáculo de marionetas (na verdade é um espectáculo misto de marionetas e pessoas)... muito muito giro! (não ultrapassa o melhor espectáculo de marionetas que vi até hoje, as marionetas de água no Vietname, que recomendo vivamente... mas ainda assim, muito engraçado... até comprei uma marioneta no final)
Faltam duas etapas no Uzbequistão - Samarcand e Tashkent. Mas são 20h20 em N. Delhi (mais 5h30 do que Portugal continental) e parece-me que vou voltar ao restaurantezito tibetano onde jantei ontem... Mas já vos deixo leitura para uma tarde de feriado! :-) Até breve!





















Bem...Como sempre disse, adoro as tuas crónicas, fazes-me sentir aí contigo. Assim parte da minha alma continua a viajar. O meu munino está lindo, podes cuscar as fotos novas, quase a fazer 1 ano!!! Continuo a tratar da papelada a ver se nos encontramos noutro destino ;) beijos grandes!!!!
ResponderEliminarQue bom batatinhas fritas, miar de gato, rapaz esquecido...essa de ir á procura com uma lanterna....bem....!!!heheheh. Fiquei com uma boa barrigada de riso neste teu último episodio do blog....! Ah..e um brinde ao noivo!!!bjs.
ResponderEliminarMinha Linda
ResponderEliminarEu faço parte daqueles seguidores não oficializados que 'fica em viajem confortável' ao sabor destas deliciosas descrições de 'aventuras radicais'... Mas não consigo ficar indiferente a tanta experiência concentrada em tão pouco tempo, por isso, revelei-me!
Para além de parabéns atrasados, desejo-te as maiores felicidades para este passeio pelo mundo.
Coragem, saúde e alegria! Eu cá estarei para saborear confortavelmente os teus comentários partilhados.
Um forte abraço
Lena B.
um jantar de anos de batatas fritas?... Que bom! :-)
ResponderEliminarJá sei qual o jantar que te irei dar no próximo ano :-)
Que tudo continue a correr bem.
Bjs
Tia Zé
O teu jantar de anos fez-me lembrar um poema de Camões, quando convidou um amigo para jantar na Índia:
ResponderEliminar"Tendes nem migalha assada,
coisa nenhuma de molho,
e nada feito em empada,
e vento de tigelada,
picar no dente em remolho.
De fumo tendes tassalhos,
aves da pena que sente
quem de fome anda doente;
bocejar de vinho e d’alhos
manjar em branco excelente."
Ele nem batata frita...
Bjs
Tia Zé