03/12/09

Novamente do bairro tibetano... recordacoes de Samarkand (Uzbequistao, Parte 2)

Hoje comemoro o 50º dia da minha viagem :-) Já parece que saí de Lisboa há tanto tempo... Não podia deixar passar a data em branco sem escrever mais uma crónica (que por acaso foi escrita ontem à noite, mas só agora consegui vir à internet publicá-la)...

Escrevo-vos novamente do bairro tibetano... decidi mesmo parar por aqui uns dias. Pelo terceiro dia consecutivo estou a jantar naquele que é já o meu restaurante preferido do bairro (também não há assim tantos) e cujo slogan é "place where you'll love to come back", parece-me bem, por isso volto... Os empregados já me conhecem, gosto desta familiaridade. Pode-vos parecer estranho não me apetecer experimentar novidades, a verdade é que nestas viagens mais longas gosto precisamente de ter algumas pequenas rotinas, porque tudo à minha volta é novo... ir duas vezes ao mesmo restaurante já me faz sentir "em casa" (além dos senhores que ficam todos contentes de me ver mais uma vez, todos os dias experimento um prato novo, por isso, na verdade é sempre uma experiência nova).
Outra coisa que vos pode parecer estranho é a razão pela qual me vim instalar num um bairro tibetano, a ter uma experiência tibetana, se estou na Índia (sendo que na Índia  não faltam experiências verdadeiramente indianas para aproveitar...) Várias razões... bem, a primeira porque sinto um certo fascínio pelo Tibete, país propriamente dito, mas também pelo povo tibetano e acho interessante a forma como a Índia acolhe culturas tão diferentes, de braços abertos ; segunda, porque este bairrinho é um pequeno paraíso de calma no meio do caos de N. Delhi; terceira porque tinha de parar por uns dias para trabalhar (continuo as minhas traduções, à distancia, para poder viajar mais tempo, está tudo pensado :-) e, por último, porque essa paragem tinha de ser em N. Delhi para ir à embaixada portuguesa. Pela primeira vez na vida, o meu passaporte vai ficar completo antes de terminar a validade! Resta-me 1 única página em branco :-) e como quero ir ao Nepal e daí para o Tibete (e em ambos os locais não existe embaixada) já não tenho espaço para tantos vistos e tenho de fazer um passaporte novo aqui... Só que hoje liguei para a embaixada e a máquina dos passaportes não está a funcionar (?!) portanto a senhora deu-me duas hipóteses: ou fazia lá um passaporte temporário (com a validade de 6 meses, não interessa) ou ia fazer um novo a Goa (onde a máquina está a funcionar, garantiu-me ela...) Realmente planeava ir a Goa nalguma altura, mas tinha pensado para depois do Nepal, assim terei de deixar Nepal e Tibete para depois da Índia (porque se vou para Goa, a sul, depois só volto ao norte da Índia no final)...
É por isso que quando me perguntam os planos detalhados do meu percurso, não tenho resposta para dar... A verdade é que não sei... na minha cabeça, apenas um esboço de ideias... é impossível planear uma viagem longa assim porque estão sempre a acontecer imprevistos (na maioria dos casos, bons imprevistos, como conhecer pessoas novas e querer mudar de rota ou ser "obrigada" a ir a Goa fazer um novo passaporte :-) No entanto, devo informar-vos que, embora a rota seja algo imprevisível, já há quem esteja a trabalhar arduamente para encontrar um mapa de jeito que irei incluir no meu blog (para atender aos vários pedidos, isto porque foi a principal sugestão que me fizeram de melhoria... mas continuo a aceitar novas sugestões e a tentar incorporar as que me parecem mais interessantes, contando com a preciosa ajuda dos meus "colaboradores"...).


(agora entrou aqui no restaurante um senhor que pediu o menu, começou a ler e depois levantou-se e saiu todo indignado, a refilar que não é um restaurante vegetariano e que comer animais é inadmissível... que cena! Ainda por cima a maioria dos pratos deste restaurante até são vegetarianos... têm apenas meia dúzia com carne...)

Ontem falava-vos da música ambiente do café com internet grátis... aqui no tibetano, tenho jantado todos os dias ao som de Bob Marley...

Bem... mas antes de continuar com a experiência indo-tibetana, convido-vos a regressar ao Uzbequistão uma vez mais...


Pode não ter sido a minha cidade preferida em todo o Uzbequistão (como dizia ontem, a minha preferida foi Bukhara), mas sem dúvida que Samarkand foi a cidade que me inspirou a visitar o país... Basta o nome, Samarkand, para me fazer sonhar com seda, camelos, comerciantes e caravanserais no deserto... Foi uma das cidades mais importantes da Rota da Seda, mas a sua história remonta a muito antes. Já no tempo das invasões de Alexandre, o Grande (sec. IV a.C) era uma cidade importante e magnífica. O próprio Alexandre disse "Tudo aquilo que ouvi sobre Marakanda (o nome grego de Samarkand) é verdade, excepto que é ainda mais bonita do que alguma vez imaginei!" (está um bocadinho diferente, talvez, mas uma descrição destas promete...).


Desde essa altura, Samarkand foi sempre uma cidade próspera e com uma população crescente, revestindo-se de uma particular importância durante a época do comércio da seda através da Ásia Central (até ao dia em que um português se lembrou de vir estragar o negócio a este pessoal todo... mesmo assim eles ainda nos falam com alegria do Figo e do C. Ronaldo... o nosso Vasco da Gama deve invocar memórias mais amargas... talvez não saibam que era português... adiante...)


Mesmo assim, Samarkand sobreviveu ao destino de decadência que a descoberta da rota marítima para a Índia lhe parecia ter reservado. Isto porque mais ou menos por essa altura, a cidade se tinha convertido num importante centro intelectual e cultural da Ásia Central. Este sucesso deveu-se sobretudo a um importante governante, Ulugbek (neto de um outro governante ainda mais célebre, Timur, de quem existem estátuas por todo o lado no Uzbequistão). Ulugbek era um reconhecido astrónomo e tinha um astrolábio de 30 m (uma parte foi desenterrada e pode ser visitada) no seu observatório em Samarkand, local onde existe hoje em dia um pequeno museu dedicado ao seu trabalho.


A partir do sec. XVI a cidade entrou em declínio, em parte porque na dinastia seguinte à do Ulugbek a capital foi transferida para Bukhara, e por outro lado porque foi devastada por uma série de terramotos nos séculos seguintes (por isso é que o dito astrolábio teve de ser desenterrado), só voltando a adquirir novamente algum estatuto e importância estratégica com a construção da linha férrea pelos russos, já no sec. XIX.

Em Samarkand também assistimos a um casamento no bairro da nossa guesthouse. Parece que os casamentos são qualquer coisa no Uzbequistão... mas li que a violência doméstica é de cerca de 40% (e para ser "oficialmente" de 40%, que já parece imenso, imaginem o que será na realidade...). Dessa vez não fomos convidados para fazer um brinde, mas antes para tirar uma foto rápida dentro da limusine dos noivos :-) (mais um bocadinho tínhamos ido ao copo de água, mas eu ainda estava com a gastroenterite, não dava para aproveitar convenientemente...)



Falando em casamentos... ainda é tradição no Uzbequistão as raparigas costurarem o seu suposto enxoval (que depois é devidamente inspeccionado pelas potenciais sogras para avaliar as virtudes da potencial nora). O resultado são uns bordados chamados suzanis, que existem em várias cores, padrões e tamanhos (todos os padrões têm um significado) e que são os típicos tecidos artesanais que se vendem no Uzbequistão (de cada local, desenhos e cores característicos). Este foi o suzani que o Pedro quase comprou (já agora, por curiosidade, todos os desenhos deste suzani remetem para significados zoroastrianos, que também aqui era a religião dominante antes do islamismo – falo sobre isso nos relatos do Irão, um pouco mais para trás, recordam-se?; o senhor da loja deu-nos uma explicação super completa, mas acho que só me lembro que o centro representa o fogo...)



Por último, Tashkent, a capital do Uzbequistão. Na verdade, não é uma cidade especialmente interessante e pouco há a dizer... para além de termos estado apenas um dia, precisamente nesse dia choveu desalmadamente, portanto demos umas voltas à chuva e visitamos o Museu de História e do Povo do Uzbequistão (por acaso bem interessante e muito bem organizado, do melhor que vi por estas bandas). A melhor recordação que tenho é de um folhado de abóbora delicioso que provamos no mercado... (e de ter percebido que, depois daqueles dias todos quase sem comer, já estava novamente em forma!)



No dia 29 de Novembro, o voo 423 da Uzbekistan Airways trouxe-me de volta à minha querida Índia... quase 1 ano depois, já tinha saudades...



O prazo do meu visto é 29 de Março de 2010, ou seja, exactamente 4 meses inteirinhos para passear por aqui (com uma eventual incursão ao Nepal e ao Tibete pelo meio)...

Boas leituras e até breve!

2 comentários:

  1. :) Fantástica descrição do teu 50º dia de viagem, adorei a música que me calhou quando abri o Blog, o soundtrack do Braveheart :)))

    Mary, fico muito feliz que estejas a gostar dos teus destinos, das tuas rotinas, e um beijinho muito grande do Mike

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  2. Vê o poema de Camões que coloquei no teu blog de ontem e percebe a sorte que tiveste no teu jantar de anos - podia ser pior...
    Bjs
    Tia Zé

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