21/12/09

O Templo Dourado

Uma das coisas que mais me impressionou na Índia da primeira vez que visitei (e que me continua a impressionar agora) é a imensa diversidade religiosa deste país. Templos hindus, mesquitas, igrejas cristãs, sinagogas e templos que abrigam outras religiões coexistem lado a lado, de forma pacífica.
Há pouco mais de 500 anos, um homem nascido no seio de uma família hindu no norte da Índia (num local que faz hoje parte do Paquistão, com influência muçulmana portanto) teve, segundo a lenda, um "encontro místico" e declarou que não existiam hindus, nem muçulmanos, mas apenas um Deus e a verdade suprema. Foi o início de uma nova crença, que é actualmente a religião praticada por 2% da população na Índia (parece pouco, não é? Mas 2% representa mesmo assim 20 milhões de indianos...). Os sikhs distinguem-se do resto da população porque envergam um turbante colorido (pode ser de qualquer cor, mas as cores principais são laranja e azul escuro) que esconde uma longa cabeleira enrolada num carrapito. Uma das regras que os sikhs devem respeitar é não cortar o cabelo nem a barba. Obviamente isto é válido para os homens, parece-me que as mulheres não têm marca distintiva especial, excepto andarem ao lado de um homem com um turbante.

A maioria dos sikhs são vegetarianos e não bebem álcool, nem fumam, mas isto não são regras tão importantes e alguns deles comem mesmo carne e bebem álcool (não assim no exterior, apenas em alguns locais, mas não é assim tão mal visto hoje em dia). Em linhas gerais, a religião sikh tem bastantes influências hindus e muçulmanas, mas rejeita o sistema de  castas hindu, mantendo a ideia da reencarnação, só que é uma religião monoteísta como o islamismo (os hindus veneram milhões de divindades). Têm um livro sagrado (Adi Granth) que é conservado no principal templo sikh, o Templo Dourado, na cidade de Amritsar, no norte da Índia.
Pequena nota: eu sei que descrevo quase todos os locais que visito como espectaculares (porque são), mas verdadeiramente este foi um dos locais mais espectaculares que visitei até hoje :-) (se lá forem compreendem porquê) Porque neste caso não se trata apenas do templo em si, que é dourado como o nome indica e magnífico aliás... trata-se mesmo da própria experiência...


A começar porque nenhuma outra religião que eu conheça oferece abrigo e comida gratuitamente a todas as pessoas que visitam o seu templo (e todas significa uns bons milhares por dia). Como podem ver pela foto, o templo propriamente dito é rodeado por uma piscina de água (onde os fieis se banham, independentemente da hora do dia e da temperatura exterior) e em volta dessa piscina há um recinto com dezenas de portas para dormitórios que são diariamente ocupados pelos sikhs. No exterior desse recinto há vários outros alojamentos (alguns pagos, quando se tratam de quartos individuais, mas por uma módica quantia) incluindo um dormitório para turistas... gratuito (onde é possível ficar um máximo de 3 noites). As refeições são servidas quase 24 h/dia (disseram-me que a cozinha fechava, mas francamente, vi lá sempre actividade mesmo de madrugada), numas cantinas enormes. Ao que parece são preparadas 300 mil refeições por dia nestas cozinhas, tudo trabalho de voluntários. Noite e dia se podem observar pessoas de todas as idades nas diversas actividades, desde cortar os vegetais, distribuir os tabuleiros e os talheres, distribuir a própria comida, lavar a loiça, lavar as panelas (achei piada a isto porque as panelas são tão gingantescas que a pessoa que lava entra para dentro da panela para lavar)... E a comida é maravilhosa, ainda por cima, e servida enquanto a pessoa pedir.


Passei uma manhã sentada no chão a descascar courgetes, ao som da música que ecoa ininterruptamente do templo, completamente hipnotizante. No final, tinha as mãos pretas e encardidas (ainda se nota, ao final de alguns dias), mas tinha também uma nova família em Amritsar, com quem passei toda a manhã a praticar linguagem gestual essencialmente (uma das minhas irmãs arranhava um pouco de inglês).
Foram 3 dias quase mágicos... Levantava-me cedíssimo para percorrer descalça o mármore gelado em volta do templo, ao som dos cânticos (não é permitido entrar com sapatos, têm de se deixar à entrada... os meus ficavam directamente no quarto, porque era pertíssimo... parece  estranho, mas a pessoa habitua-se a andar descalça), ia comer ao refeitório, ajudava na cozinha, voltava para o templo... Sempre com aquela música, a presenciar a devoção dos fieis, a conversar com as pessoas... Certamente um local onde tenciono voltar (e que recomendo vivamente, é um pouco fora do circuito habitual, mas é mesmo uma experiência diferente e fascinante).
Amritsar foi também o local de reencontro de 2 amigos que o Pedro e eu tínhamos conhecido no Irão um mês antes (eu reencontrei porque o Pedro entretanto já estava noutras paragens), um checo (Filip) e um espanhol (Isaac), que atravessaram o Paquistão (enquanto nós atravessávamos o Turquemenistão e o Uzbequistão) e também vieram para a Índia. De Amritsar, eu e o Filip decidimos vir para o Rajastão e o Isaac foi para o sul; em princípio voltamo-nos a reunir na passagem de ano.
A primeira paragem no Rajastão seria Jaisalmer, no deserto, quase próximo da fronteira (fechada) com o Paquistão. Descobrimos que teria de ser feita por etapas, por isso decidimos parar um dia numa outra cidade chamada Bikaner. Para ir até Bikaner apanhamos um autocarro local à noite, que supostamente chegaria a meio da noite a uma territa no meio do nada (Ganganagar, só nome diz tudo), onde esperávamos apanhar outro autocarro local até Bikaner. Correu tudo bem e às 3 h da manhã apanhamos um segundo autocarro já em andamento e tivemos até direito a um lugar "cama" (são uns autocarros que existem na Índia, categoria "luxo", que têm cadeiras normais e por cima uns compartimentos-cama... curiosamente foi também num destes super autocarros que passei a passagem de ano 2008-2009, tinha saudades... :-) Eu sei que soa bem, mas o estado miserável das estradas faz com que seja quase impossível dormir, apesar de estar na posição deitada...).
Chegamos a Bikaner um bocado amassados na manhã seguinte, mas na Índia, as estações de comboio têm muitas vezes uns quartos (individuais com casa de banho, mas também têm dormitórios) que se podem alugar durante o dia. Como o comboio para Jaisalmer era só à noite, foi isso que fizemos.
A 30 km de Bikaner, existe uma pequena cidade, Deshnoke, que abriga um templo um pouco invulgar... (os leitores mais sensíveis ou impressionáveis talvez queiram saltar o parágrafo seguinte e tapar as fotos, mas tenho de contar...).
O templo Shri Karna Mata é também conhecido como o templo dos Ratos Sagrados e não é por acaso... Os principais ocupantes deste templo são exactamente centenas de ratos que correm por todo o lado e que são venerados à exaustão (há comida também por todo o lado para os alimentar devidamente)... Diz-se que quem avista um rato branco tem sorte para toda a vida (infelizmente não vi) e que se um rato passar por cima do pé descalço (neste local, mais uma vez, se deixam os sapatos à entrada... :-), também é sinal de sorte... E acreditam que um rato passou mesmo por cima do meu pé? Não posso dizer que tenha sido a melhor sensação da minha vida, mas senti-me logo mais sortuda por ter tido a experiência, não é para todos...


Bikaner tem ainda um forte, com um museu no interior. A entrada dá direito a uma visita guiada, mas como fomos à última visita do dia, foi uma visita um pouco "expresso" porque estava quase na hora de fechar (do género a desligarem as luzes e a fecharem as portas atrás de nós); a visita é bastante interessante até, realmente foi pena...


De Bikaner apanhamos um comboio nocturno para Jaisalmer, onde fomos acordados na madrugada seguinte, ainda dentro do comboio, pelo dono de uma guesthouse, a impingir-nos um quarto. Em Jaisalmer, a caça ao turista é um pouco selvagem...

Cenas dos próximos episódios: Jaisalmer, a cidade dourada e o deserto do Rajastão. Ate la!

4 comentários:

  1. Já estava com saudades dos teus relatos :-)
    Obrigado pelo bocadinho de Índia!

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  2. Pois é titia, aqui estávamos cheios de saudades, conseguimos matar algumas com o postalito que nos chegou, já foi para a famosa parede das viagens!!! Não tão gloriosa como uma feita por ti poderá ser!!
    Entretanto já temos o ielts feito e passado com distinção!! Os docs para a Ordem seguem amanhã!!! Já temos advogado para autenticar a documentação!!! Não me sentes já mais perto? :D grandes beijocas da famelguita

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  3. Os ratos confirmaram o que já sabiamos :-)) Bjos, boa viagem! >Margarida

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