Os meus dias nas últimas três semanas começaram assim...
Todas as manhãs, por volta das 5h30 uma equipa de despertar anda pelas cabanas de Sadhana Forest a tocar um instrumento ou a cantar (ou ambos, o método utilizado fica ao critério dos membros da equipa nomeada para a semana) a acordar os residentes e voluntários. Cerca de meia hopra depois, reunimo-nos neste círculo de bons dias onde dividimos as tarefas diárias.
O projecto da comunidade Sadhana Forest em Auroville, sul da Índia, é um projecto de reflorestação. O principal objectivo é, por isso, plantar árvores e construir uma floresta. Contudo, esta altura do ano não é adequada para plantar nada; na época seca o trabalho na floresta é principalmente um trabalho de conservação de água e os voluntários dedicam-se a duas tarefas principais: construir lombas/barreiras para reter a água que cairá na época das chuvas ou proteger as árvores jovens plantadas na última temporada com uma "caminha" de folhas e outros materiais que ajudam a manter a humidade nas raízes.
A maioria das pessoas vai para a floresta, mas para além destas tarefas específicas na floresta, existem outras tarefas acessórias para manter a comunidade, tais como cozinhar, limpar as áreas comuns, cuidar do jardim (a "zona residencial" da comunidade é rodeada por um jardim) e afins. Nos primeiros dias adorava as tarefas da cozinha e voluntariava-me sempre para preparar as refeições, mas agora acho que prefiro ir para a floresta construir as lombas.
Isto é uma sequência daquilo que fazemos basicamente (não é um trabalho muito árduo e além disso somos muitos). Começamos por cavar um buraco com umas barras de ferro (foto 1); o solo aqui é um bocado argiloso e está muito calor, por isso é relativamente fácil parti-lo com as barras. Depois de partir, entra a equipa das pás, que coloca a terra em pratos (foto 2) que depois são passados de mão em mão, numa cadeia humana até serem depositados nas lombas (foto 3). A última tarefa consiste em calcar as lombas para as tornar mais resistentes (foto 4). Os buracos vão armazenar água das chuvas e as lombas vão ajudar a conservá-la na floresta. Por exemplo hoje passei a manhã a calcar lombas (e a tirar estas fotos para vos mostrar).
Fazemos isto durante cerca de 2 horas, ou um pouco menos, e depois tomamos o pequeno almoço todos juntos.
Esta comunidade é uma comunidade vegan, o que significa que para além de não consumirmos animais, aqui não consumimos sequer quaisquer produtos derivados de animais (ou seja, leite e lacticínios, ovos, mel... basicamente isto). Algumas das pessoas que aqui moram são 100% vegans, mas a maioria não são (nem sequer são vegetarianos), mas as refeições que comemos aqui são vegan e pedem-nos para não trazer alimentos não vegan para dentro da comunidade. Se isto vos parece radical, posso dizer-vos que ser vegan nem é nada radical comparado por exemplo com as pessoas que seguem uma dieta de alimentos crus (como também existem aqui) - essas pessoas são vegans e não comem nada que tenha sido cozinhado (portanto nem sequer pão comem, imaginem... e mesmo para essas pessoas, por incrível que vos possa parecer, há muitas opções). Nem fazia ideia da diversidade de dietas e de teorias diferentes acerca da alimentação que existe...
Para mim isto da dieta crua ou mesmo vegan é um pouco extremo demais (não como carne há alguns anos, mas parece-me difícil não comer peixe e queijo, por exemplo), mas na semana passada assisti a uma palestra sobre veganismo numa outra comunidade aqui perto e fiquei com vontade de experimentar uma alimentação 100% vegan durante 1 mês (segundo a palestrante, médica e ela própria 100% vegan há muitos anos, quem experimenta nunca mais quer outra coisa :-) Talvez fique convertida, quem sabe? :-) Tinha aqui uma óptima oportunidade, mas na Índia (onde é muito fácil ter uma alimentação puramente vegetariana, aliás...) estou viciada no meu chai (chá indiano com leite), por isso acho que vou deixar para mais tarde. Foi uma palestra super interessante que ocupou o dia inteiro e comemos 3 refeições vegan. Sei que a maioria dos meus leitores se vai rir, mas acreditem que foram das melhores e mais deliciosas refeições que tenho comido ultimamente... o que é preciso é imaginação, há mesmo muitas, muitas opções e formas de cozinhar os alimentos com resultados deliciosos! Comprei um CD de receitas :-)
Continuando na cozinha, estes são os nossos fogões especiais (que conservam o calor e o aproveitam da melhor forma, sem aquecer as paredes e portanto, sem desperdício de energia). Na semana passada uma das minhas tarefas foi precisamente acender o fogo nos fogões... andei a semana toda a cheirar a churrasco. Mais uma vez tudo é aproveitado: as cinzas utilizam-se para lavar a loiça e o carvão para as plantas) e os restos (divididos em alimentos crus, que se decompõem mais facilmente e alimentos cozinhados, de decomposição mais enta) seguem para as zonas de compostagem.
Continuando na cozinha, estes são os nossos fogões especiais (que conservam o calor e o aproveitam da melhor forma, sem aquecer as paredes e portanto, sem desperdício de energia). Na semana passada uma das minhas tarefas foi precisamente acender o fogo nos fogões... andei a semana toda a cheirar a churrasco. Mais uma vez tudo é aproveitado: as cinzas utilizam-se para lavar a loiça e o carvão para as plantas) e os restos (divididos em alimentos crus, que se decompõem mais facilmente e alimentos cozinhados, de decomposição mais enta) seguem para as zonas de compostagem.
Tudo isto porque para além de ser vegan, esta é também uma comunidade ecológica e de desenvolvimento sustentado (não completamente, não produzimos tudo aquilo que consumimos, mas beseia-se nesse conceito). Para além da compostagem, nós próprios produzimos mais adubo para as nossas plantinhas nestas magníficas casas de banho...
(sim, isto é a casa de banho... é só isto, assim tal e qual, podemos olhar para o céu enquanto nos dedicamos à produção de adubo)
Existem dois compartimentos: "adubos" sólidos e "adubos" líquidos, nada de misturas. Temos de separar porque são utilizados com diferentes finalidades... na prática nem sempre é fácil, mas a capacidade de adaptação humana nunca deixa de me surpreender. Os líquidos vão para o local óbvio na foto e os sólidos para o recipiente ao fundo, coberto com uma tampa.
O "duche" é mais prático. Há uma bomba de água movida por uma manivela com a qual podemos encher um balde e depois usar uma canequinha para nos banharmos. A verdade é que este é o método mais utilizado na Índia, onde mesmo nos hotéis é rara a existência de um duche verdadeiro (por duche entenda-se uma torneira com buraquinhos presa na parede num loca alto e o espaço delimitado correspondente). Normalmente aquilo que existe é uma torneira a maia altura, um balde, uma canequinha e um ralo na casa de banho por onde escorre a água (portanto tomar banho é sinónimo de inundar toda a casa de banho e depois andar a espezinhar). Aqui tem a vantagem de ser ao ar livre (eu por exemplo adoro tomar duche à noite, sem outra iluminação que não a luz da lua e o brilho das estrelas...).
O sabonete, o champô e o pó dos dentes (não é pasta, explicarei em seguida) são 100% biodegradáveis e são fornecidos aqui. Temos de usar estes produtos e não outros para não contaminar a água e a terra com susbtâncias químicas indesejáveis. Para ser sincera, nunca senti o cabelo verdadeiramente lavado nestas 3 últimas semanas (nem sequer posso usar amaciador), mas o meu verdadeiro pesadelo é o pó dos dentes. Para além do sabor horroroso a ervas e sei lá mais quê, não faz qualquer espuma e não dá jeito nenhum para colocar em cima da escova (cai todo para a roupa). Toda a gente me dizia que era uma questão de hábito e até me considero uma pessoa bastante adaptável, mas pó para os dentes simplesmente não funciona comigo.
Para lavar as mãos durante o dia, utilizamos as estações de lavagem das mãos (canequinha e sabonete líquido nas garrafas penduradas) e a roupa também é lavada em baldes com sabão biodegradável na estação de lavagem de roupa (que normalmente está cheia de gente e não assim deserta, nem percebo o que se passava neste dia).
E finalmente, os meus aposentos... vistos de fora e por dentro. Fica ao lado das cordas comuns de secagem de roupa (que podem ver à esquerda na primeira foto).
O "duche" é mais prático. Há uma bomba de água movida por uma manivela com a qual podemos encher um balde e depois usar uma canequinha para nos banharmos. A verdade é que este é o método mais utilizado na Índia, onde mesmo nos hotéis é rara a existência de um duche verdadeiro (por duche entenda-se uma torneira com buraquinhos presa na parede num loca alto e o espaço delimitado correspondente). Normalmente aquilo que existe é uma torneira a maia altura, um balde, uma canequinha e um ralo na casa de banho por onde escorre a água (portanto tomar banho é sinónimo de inundar toda a casa de banho e depois andar a espezinhar). Aqui tem a vantagem de ser ao ar livre (eu por exemplo adoro tomar duche à noite, sem outra iluminação que não a luz da lua e o brilho das estrelas...).
O sabonete, o champô e o pó dos dentes (não é pasta, explicarei em seguida) são 100% biodegradáveis e são fornecidos aqui. Temos de usar estes produtos e não outros para não contaminar a água e a terra com susbtâncias químicas indesejáveis. Para ser sincera, nunca senti o cabelo verdadeiramente lavado nestas 3 últimas semanas (nem sequer posso usar amaciador), mas o meu verdadeiro pesadelo é o pó dos dentes. Para além do sabor horroroso a ervas e sei lá mais quê, não faz qualquer espuma e não dá jeito nenhum para colocar em cima da escova (cai todo para a roupa). Toda a gente me dizia que era uma questão de hábito e até me considero uma pessoa bastante adaptável, mas pó para os dentes simplesmente não funciona comigo.
Para lavar as mãos durante o dia, utilizamos as estações de lavagem das mãos (canequinha e sabonete líquido nas garrafas penduradas) e a roupa também é lavada em baldes com sabão biodegradável na estação de lavagem de roupa (que normalmente está cheia de gente e não assim deserta, nem percebo o que se passava neste dia).
E finalmente, os meus aposentos... vistos de fora e por dentro. Fica ao lado das cordas comuns de secagem de roupa (que podem ver à esquerda na primeira foto).
Quando cheguei dividia o quarto com uma americana que entretanto se foi embora e agora divido com uma indiana de Calcutá... mas é quase como dormir ao relento. Na verdade, os mosquitos nem sequer me incomodam muito porque para além da rede mosquiteira, não há luz nas cabanas à noite (daí o meu duche às escuras), apenas na cabana principal onde comemos (e onde estou agora eu própria a servir-lhes de banquete por exemplo), portanto os mosquitos não são atraídos para as cabanas, além de que muitos dos repteis com quem também divido o meu quarto os devoram com prazer. Aqui há osgas, lagartos, cobras, sapos e afins de todos os tamanhos (os sapos são os meus preferidos, alguns são tão minúsculos que parte devem ser esborrachados, coitados, mas são tão engraçados :-)
Continuando com a descrição do meu dia típico... Depois do pequeno almoço temos a segunda tarefa diária. A essa hora já está muito calor para ir para a floresta, portanto normalmente as tarefas são no jardim ou nas áreas comuns e geralmente são trabalhos menos exigentes. A minha tarefa esta semana tem sido recolher sementes de uma planta chamada tulsi (não faço ideia se tem tradução em português), mas que é típica desta região e que segundo a crença local é sinal de boa sorte e de prosperidade da terra. Um dos projectos que a comunidade está a desenvolver neste momento é o envio de uma equipa de voluntários para o Haiti, precisamente com a missão de reflorestar e de contribuir com alguma energia positiva e uma das coisas que vão levar é o meu frasquinho de sementes microscópicas de tulsi (é um trabalho super meticuloso, porque as sementes são mesmo muito pequenas e tenho de as peneirar; eu e a minha amiga e companheira de tarefa sraelita descobrimos o método mais eficaz para as recolher e estamos tão entiusiasmadas com isto que já recrutamos naturalmente outros voluntários para passar 1 hora e tal ao sol a recolher sementes).
O almoço é servido por volta das 12h30 e o resto do dia fica por nossa conta. Podemos ler, dormir, sair, mas há muitas actividades e workshops organizados aqui. Basicamente todas as pessoas que sentirem que têm algo que podem partilhar se podem voluntariar para organizar um workshop, portanto cobrem os mais variados assuntos: capoeira, japonês, harmónica, hebreu, circo, francês, veganismo e ecologia, aulas de yoga... tudo aquilo que possam imaginar. Os workshops de capoeira são organizados por um casal de portugueses que está aqui a longo prazo (mas que já viveram no Brasil e em África durante umas temporadas; organizam também um workshop de danças africanas). Estão envolvidos num projecto com as crianças residentes e crianças das aldeias vizinhas e são super dinâmicos e trazem muita energia positiva à comunidade.
Durante o fim de semana também temos um turno na cozinha, mas o resto do tempo é livre (não é servido almoço e a maioria das pessoas sai e passeia pelas redondezas, pelas aldeias locais, Pondicherry, outras comunidades de Auroville, praia, etc).
Só uma nota em relação às crianças residentes. São crianças não escolarizadas, ou seja, não frequentam o ensino convencional, são ensinadas à medida que sentem a necessidade de aprender pelos adultos que as acompanham. Por exemplo, ninguém as ensina a ler ou a escrever obrigatoriamente; a ideia é que um dia elas sentirão necessidade (por verem os adultos a ler por exemplo) e aí pedem a alguém que as ensine. É um conceito bastante diferente e um pouco estranho para mim, mas apesar de ter as minhas questões e dúvidas relativamente à metodologia, não deixo de achar interessante, nunca tinha pensado nesta forma de educação...
É difícil descrever um dia típico porque todos os dias são bastante diferentes e bastante intensos também. Tem sido uma experiência fantástica sobretudo porque tenho conhecido imensas pessoas super interessantes. A grande maioria dos voluntários aqui são substancialmente mais novos do que eu e surpreende-me a coragem de virem para a Índia viajar, em muitos casos sozinhos, como nunca me passaria pela cabeça aos 18 ou 20 anos...
Sigo viagem na próxima semana... a etapa seguinte é Tiruvanamalai, que fica apenas a umas 3 horas de autocarro daqui... Resta-me pouco mais de 2 semanas na Índia nesta temporada, começo a planear Nepal (no final deste mês, onde fico 6 semanas), uma breve passagem pela Tailândia e Myanmar em Maio/Junho... Alguém alinha? :-)
















Bem..... que vida!Faz-me um bocadinho confusão imaginar tudo isto em época de chuva , mas..é sem dúvida um espaço fantásico de aprendizagem...que depois quero umas dicas de do teu cd de receitas ;-)
ResponderEliminarA tua casa de banho parece ser um ritual algo "trabalhoso" mas enfim,alguem tem de adubar :-S
beijinhos e obrigada pela explicação do teu dia-a-dia nessa comunidade.:-*
Como sempre, fazes-me voltar a sentir parte do mundo em que realmente se pretende fazer a diferença. Cada dia que passo com ajuda dos amigos estou também mais perto da próxima paragem que como sabes pretendo vivenciar contigo ;)
ResponderEliminarImpressionante Mariananinha. Gostei muito de ler a tua crónica (nome chique-lolol).Claro que também quero ver o CD das receitas e fico à espera que tu nos presenteis com alguma :)
ResponderEliminarBy the way...sempre ouvir que dizer que o "nosso" adubo não prestava...sorry.
beijinhos
Nikas
dp destas fotos, certamente que já ninguém achará a minha cama estranha :-) e eu não tenho as osgas, sapos, lagartos...
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