Começo este relato sentada na varanda da minha cabana rodeada de palmeiras por entre as quais vejo uma fatia de mar... o mar de Andaman, que banha a costa este da Índia. É o meu último dia em Auroville. Os meus planos mudaram ligeiramente desde a última vez que escrevi. Não fui capaz de deixar Auroville na data prevista (literalmente, no dia da minha suposta partida, atrasei tudo até que se tornou tarde demais para ir para qualquer sítio e percebi que de facto não me apetecia ir para lado nenhum). No meu último fim de semana em Sadhana Forest percorri as redondezas na minha motoreta (contei-vos que aluguei uma motinha meia podre? Grande aventura, no meio do trânsito indiano), fui à praia, descobri novos excelentes sítios para beber chá e almoçar/jantar. Decidi por isso ficar mais uns dias, apenas troquei a floresta pela praia e a mota por uma bicicleta (meia podre também). A bicicleta tem a grande vantagem de tornar as deslocações mais lentas e de me permitir observar mais. Hoje por exemplo encontrei este fantástico animalzito pelo caminho (depois de ter sido ultrapassada por várias motas cujos ocupantes não viram porque iam mais depressa e, como tal, não pararam).
Penso que da última vez escrevi que às 6as feiras há uma visita guiada a Sadhana Forest com o fundador do projecto. Curiosamente apenas tive a oportunidade de assistir na última 6a feira... Ainda bem que decidi fazê-lo porque achei espectacular e, apesar de já estar a viver na comunidade há 3 semanas, aprendi imensas coisas novas e mudou um pouco a minha perspectiva sobre alguns aspectos. O Aviram é um israelita que há cerca de 6 anos atrás trocou uma carreira de psicólogo clínico e veio com a mulher e uma filha pequenita para a Índia fundar este projecto de reflorestação. No século XIX existia uma banda de cerca de 50 km de largura de floresta tropical que se estendia aproximadamente desde a zona de Chennai até Kanyakumari (a ponta mais a sul da India, cerca de 750 km). Era a maior área de floresta tropical de toda esta região, uma área imensa.
Acontece que desta extensa floresta povoada de elefantes e outros animais selvagens restava apenas 0,1%, há cerca de 30 anos atrás, um verdadeiro desastre ambiental; as árvores foram cortadas e as chuvas foram varrendo todos os nutrientes do solo até ao mar. É essa a razão para todas estas comunidades que se dedicam à reflorestação e reintrodução da flora que povoava esta região há 200 anos atrás.
Esta família israelita (que entretanto já tem mais um elemento made in Auroville) dedicou-se exactamente a isso, mas decidiu criar uma comunidade baseada nos seus ideais (tal como já vos contei, 100% vegan, livre de substâncias que alterem o estado de consciência :-) que aceita todo e qualquer voluntário que queira participar e que respeite as ideias. Trata-se também de uma comunidade sem quaisquer fins comerciais e que pretende originar o mínimo impacto possível em termos ambientais (por isso tudo é aproveitado, a utilização de água minimizada, a energia obtida através de forma alternativas etc; a própria ideia de comunidade vegan baseia-se exactamente neste princípio). Achei muito interessante ouvi-lo a explicar todo o projecto e depois alguém me falou que estavam disponíveis umas entrevistas com o Aviram online. Se quiserem saber um pouco mais, aqui ficam os links (na verdade, é uma única entrevista dividida em 4 partes, em inglês, não sei se há algumas legendas disponíveis). Obviamente que na minha perspectiva, algumas das ideias são interessantes e outras menos (não sofri nenhum tipo de lavagem cerebral, não se preocupem...); e ao contrario daquilo que se possa pensar não se trata de uma família de milionários que não tinha mais nada que fazer nem onde gastar o dinheiro, são pessoas perfeitamente normais e bastante humildes até. Apenas com uma visão diferente...
Neste último fim de semana, tive igualmente a oportunidade de visitar uma outra comunidade super interessante, que também se dedica a reflorestação e plantação de algumas espécies autóctones em particular, mas que enriqueceu este projecto com a construção de um espectacular jardim botânico (com painéis explicativos muito completos de todas essas espécies, incluindo as suas utilizações medicinais) e que se dedica precisamente à investigação, produção artesanal e reintrodução de medicamentos tradicionais obtidos a partir dessas plantas. Pareceu-me um projecto muito bem estruturado e interessantíssimo (quase parecia que tinha voltado à faculdade ao recordar os nomes e propriedades de todas aquelas plantinhas – na verdade recordava muito pouco, botânica e farmacognosia nunca foram cadeiras a que me dedicasse fervorosamente).
Outra das razões porque decidi ficar mais alguns dias foi porque ainda não tinha visitado o Matrimandir – o templo em volta do qual foi construída toda a cidade de Auroville. Na verdade, a construção do templo durou mais de 30 anos; começou a ser construído em 1970, 2 anos após a inauguração de Auroville e só foi completado há pouco mais de 1 ano atrás. O edifício, isto é, porque os jardins envolventes estão apenas agora a ser construídos. Isto porque se trata de trabalho voluntário essencialmente. O Matrimandir não é um templo religioso porque Auroville não tem qualquer religião; é apenas um local idealizado para meditação e introspecção. A estrutura tem este aspecto por fora.
No interior deste edifício encontra-se uma esfera de vidro que recebe a luz do sol através de uma abertura no tecto. Foi construído de forma a que, quando estamos na sala da esfera (uma sala completamente branca) e está sol, podemos observar um feixe de luz que se projecta do tecto até às esfera, iluminando toda a sala... é um efeito espectacular. Eu simplesmente adorei a visita ao Matrimandir, senti uma enorme paz interior naquela sala, só tenho pena que aos visitantes apenas seja permitido permanecer durante cerca de 15 minutos (na primeira visita, nas visitas seguintes podemos permanecer mais tempo e para os aurovilianos e acompanhantes o tempo é ilimitado – a razão para esta limitação é porque não se trata de uma "atracção turística", é um local de meditação).
Um outro local interessante que visitei em Auroville foi a cozinha solar, que é uma espécie de cantina que funciona junto ao centro de visitantes. A comida era bastante boa, mas o mais interessante foi a visita guiada. Esta cozinha (que foi inaugurada, imaginem, no dia 11 de Setembro de 2001) funciona parcialmente com um disco que concentra a energia solar numa linha onde está colocado um tubo em espiral por onde passa água. Com o calor solar esta água é transformada em vapor que é conduzido através de uns tubos para a cozinha propriamente dita para ser utilizada (tudo isto com uma pressão bastante elevada). As panelas na cozinha são constituídas por uma dupla camada e o vapor é direccionado para o espaço entre as duas camadas, aquecendo a panela. Para além disso há também uma espécie de fornos de cozer a vapor (aí o vapor está directamente em contacto com os alimentos) e todo este sistema é bastante eficiente, apenas não totalmente suficiente para a dimensão da cozinha (há um sistema alternativo, até porque na época das chuvas a cozinha não deixa de funcionar). Ainda assim permite uma economia importante de combustível; nos dias de semana, a energia solar representa apenas 1/3 da energia necessária ao funcionamento da cozinha, mas aos fins de semana, a afluência é menor por isso é suficiente (isto num dia de sol, claro).
Como vos disse, comecei a escrever este relato numa cabana na praia de Auroville, mas termino numa esplanada, numa outra praia, desta vez na costa oeste. Estou numa pequena povoação a cerca de 50 km a sul de Goa – Gokarna. A viagem até aqui demorou praticamente 2 dias – mais precisamente várias horas em 4 diferentes autocarros, 2 rickshaws e quase 24 horas dentro de um comboio... (depois ter passado 1 mês no mesmo sítio, devo confessar que não foi fácil tornar a carregar com a mochila às costas). É preciso gostar muito disto :-)
Estou a passar uns dias com uns amigos americanos que conheci no ano passado quando viajava na Tailândia (que me foram visitar a Portugal durante a minha curta estadia no ano passado, talvez alguns de vós se lembrem) e que, sem falarem uma única palavra de português, seguiam assiduamente o meu blog (com a preciosa ajuda do Google translator; dizem que nem sempre entendiam tudo mas acho espectacular a persistência) e que me dizem que os inspirei a viajar até à Índia, portanto fizeram as malas e vieram (será que consigo contagiar mais alguém? :-)
Gokarna é a minha última paragem na Índia, o meu visto está quase a terminar. Amanhã viajo até Goa, para levantar o meu novo passaporte e depois seguir viagem para o Nepal (onde espero estar daqui a uma semana). Vão ser quase 4 dias de viagem non stop até Kathmandu. Nem acredito que vou deixar a Índia, 4 meses depois. Estou contente porque vou conhecer um novo país, mas parte de mim gostaria de ficar por aqui mais uns tempos, tantos locais ainda por visitar... Foram 4 meses absolutamente fabulosos, intensos, já tenho saudades... voltarei, sem dúvida...







Nepal tb deve ser mto nice ;-))) Boa viagem
ResponderEliminarBjs
Margarida
Só tive tempo de ler o teu relato agora.Acho que se eu fosse Americana tb fazia as traduçoes "googlestas" só para ler o teu blog, e se me fosse possivel tb fazia as minhas malas e partia em busca do meu caminho. Mas se não posso é porque o meu caminho não passa por aí e apenas se cruza com o teu.
ResponderEliminarHummm.. नेपाल !!!! Vais subir ao Evereste?
Não vais ao berço a Pokhara e Lumbini, onde nasceu Sidarta Gautama?.
O ano nepalense começa em meados de Abril...portanto...Bom Inicio de ano ;-)!
..Será que os monges budistas te vão ler a Aura enquanto passeares pelos templos? :-D
ResponderEliminarEsqueci-me de dar beijinhos dos 4. A InÊs já se serviu de muitas fotografias tuas para trabalhos da escola sobre a India,...agora estão a falar da Argentina :-(..talvez venha o Nepal a seguir :-D.
(Quando regressares temos de nos encontrar porque a InÊs vai adorar ver as tuas fotos e observar o mapa mundo enquanto lhe explicas os pormenores.)
Pokhara e Lumbini na lista, claro (aliás Lumbini até vai ser o primeiro local a visitar, parece-me). Por acaso tb já tinha visto q o ano novo nepalês começava em Abril, ainda não sei onde vou estar nessa altura :-)
ResponderEliminarMariana,
ResponderEliminarComo estás? Pelos fabulosos relatos, bem de certeza! Quero-te agradecer a mensagem de parabéns, 30 já lá vão! E também agradecer-te a possibilidade de viajar sem sair do mesmo sítio! Beijocas grandes e vamos falando,
Catarina
Continuação de Boa Viagem...
ResponderEliminarEstou a curir muito..
Bjo