A Dream
There should be somewhere upon earth a place that no nation could claim as its sole property, a place where all human beings of goodwill, sincere in their aspiration, could live freely as citizens of the world, obeying one single authority, that of the supreme Truth; a place of peace, concord, harmony, where all the fighting instincts of man would be used exclusively to conquer the causes of his suffering and misery, to surmount his weakness and ignorance, to triumph over his limitations and incapacities; a place where the needs of the spirit and the care for progress would get precedence over the satisfaction of desires and passions, the seeking for pleasures and material enjoyments.
The Mother, Agosto 1954
Auroville é uma cidade muito particular que fica situada na costa este do estado de Tamil Nadu, no sul da Índia (a cerca de 20 km de Pondicherry, de onde escrevi anteriormente). Define-se como uma cidade universal ideal que se dedica a experimentar a unidade humana. Foi fundada em 1968 com base num sonho de uma senhora francesa (a Mãe) cujo líder espiritual foi um guru que vivia nesta zona na primeira metade do século XX (Sri Aurobindo). No dia da inauguração, representantes de 124 países e dos 23 estados indianos colocaram um bocado de terra dos seus locais de origem numa urna em forma de lótus no centro do local onde iria nascer Auroville. Hoje existe uma espécie de templo/centro de meditação nesse local (Matrimandir) e as várias comunidades que formam Auroville estão dispostas em redor.
Qualquer pessoa pode visitar Auroville, existem inúmeras guesthouses onde é possível passar alguns dias (ou longas temporadas), mas para ter o estatuto de Auroviliano é necessário passar um período de experiência e ser aceite numa das comunidades. Isto porque existe um certo código de conduta ou mais um código de ideologia para poder fazer parte desta cidade. Para além de um excerto do "Sonho" que transcrevi acima (que penso que já dá para terem uma ideia daquilo que se trata), encontrei uma frase da Mãe (1966) que penso que resume de certa forma aquilo que faz de Auroville um local especial; a tradução é mais ou menos isto "Para as pessoas satisfeitas com o mundo da forma como está, obviamente não existe razão que justifique a existência de Auroville".
Hoje em dia existem cerca de 2000 cidadãos oriundos de 43 países diferentes e mais de 900 cidadãos indianos a residir em Auroville. Só pela curiosidade, existem 3 portugueses com o estatuto de aurovilianos. Mas há muitas mais pessoas que passam longas temporadas numa das comunidades. Cada comunidade dedica-se a um projecto diferente (reflorestação, projectos de apoio à comunidade, com utilização de mão de obra local por exemplo, projectos relacionados com a utilização de recursos naturais ou energias alternativas), mas sempre com uma visão global de respeito pela natureza e meio ambiente e desenvolvimento pessoal e colectivo.
A maioria destas comunidades fica situada numa zona verde, de floresta e ficam mais ou menos lado a lado. Algumas outras comunidades ficam um pouco mais afastadas, por vezes devido aos próprios projectos a que se dedicam. A comunidade Sadhana Forest, por exemplo, dedica-se a plantar uma floresta (entre outros projectos interessantes, mas este é o projecto principal) e situa-se a cerca de 8 km do centro de Auroville. Mas é muito fácil circular por toda a zona com uma mota ou bicicleta.
Passei os últimos 10 dias em Sadhana Forest. Nesta comunidade é dado alojamento aos voluntários que aceitem trabalhar no projecto da floresta durante um período mínimo que varia entre 2 semanas e 1 mês (há pessoas que estão aqui há vários meses... extraordinariamente encontrei aqui vários portugueses; neste momento estão cerca de 120 voluntários em Sadhana Forest). Eu decidi ficar aqui 1 mês (o meu último mês passado na Índia nesta temporada). Trabalhamos cerca de 4 horas por dia na floresta (ou nos outros projectos ou tarefas acessórias, como na cozinha a preparar refeições por exemplo) e temos o resto do dia livre. Porque é uma comunidade ecológica, toda a energia que temos é proveniente de paineis solares e apesar de termos internet wifi gratuita, só podemos utilizar electricidade (para carregar a bateria do computador por exemplo) cerca de 3 horas por dia (e se não estiver muito sol, menos). Por isso tenho tentado escrever um pequeno diário em papel... todos os dias tenho escrito qualquer coisa sobre as minhas impressões e ideias desde que cheguei aqui. São umas condições de vida um pouco "básicas", nem sempre é fácil a adaptação, mas está a ser uma experiência extraordinária e tenho conhecido pessoas com histórias de vida interessantíssimas. Espero conseguir partilhar um pouco desse diário (ilustrado com fotos) convosco brevemente :-) Tenho a certeza de que vão gostar!
Se quiserem perceber um pouco melhor o que é Auroville, podem dar uma vista de olhos nos links que coloquei aqui pelo meio. Talvez seja uma ideia um pouco pincelada de utopia, mas não deixa de ser uma visão diferente e interessante do mundo...



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