Chove em Díli. É a primeira noite em que chove a sério desde que cheguei. Escapei por pouco às nuvens escuras que se acumulavam no céu durante a minha volta de bicicleta ao final da tarde.
Estive sentada no alpendre a ver a chuva a cair. Para além dos gatos mãe e filho aninhados no tapete à porta, a chuva desperta sempre outras espécies de vida selvagem... rastejantes, sobretudo. Há pouco andava também um sapo a saltitar por aqui (fico sempre a pensar se estarei a perder alguma oportunidade de príncipe encantado quando vejo um sapo assim tão perto, mas por enquanto falta-me a coragem para dar um beijo naquela pele verde e viscosa...).
Esteve um clima pesado durante todo o dia, ainda não estou completamente aclimatada, fico de rastos. Quase desisti da bicicleta mas finalmente ganhei coragem. Tenho de aproveitar, a minha "nova" bicicleta tem uma história especial. Andava à procura de uma bicicleta baratinha em segunda mão, apenas para estes meses (os preços das bicicletas novas estão inflacionadíssimos, o meu magro orçamento não permite essas extravagâncias). Às vezes duvidamos que o universo é perfeito e que nos devolve sempre aquilo lhe damos de coração; não poderia ter tido uma prova mais clara... Quando deixei Timor, há quase 3 anos atrás, ofereci a minha bicicleta a uma enfermeira timorense que trabalhava conosco na clínica. Desta vez, ofereceram-me uma bicicleta a mim :-) Comentei completamente por acaso (ou talvez não) com uma amiga de uma amiga (que conheci há 2 semanas portanto e vi 2 ou 3 vezes na minha vida) que andava à procura de uma bicicleta (baratinha porque os recursos eram escassos etc e tal) ao que ela me respondeu que na casa onde morava estavam umas bicicletas velhas que tinha herdado de anteriores inquilinos, mas como tinha a sua, nunca as tinha reparado. Se eu quisesse reparar uma podia ficar com ela e a única coisa que me pediu em troca é que, quando me for embora, a ofereça também a alguém que precise. O arranjo custou-me 14 dólares... (uma bicicleta nova como aquela uns módicos 250-300). (costumo dizer que devo ser uma das pessoas com mais sorte que conheço... às vezes quase me custa a crer)
No trabalho também tenho tido bastante sorte, mas vai tudo andando devagarinho (eu própria estou um pouco lenta... como disse, acho que ainda me estou a aclimatar, há dias em que parece que a energia se esgota, como se as minhas baterias internas estivessem descarregadas). Depois de ter obtido autorização para o meu estudo num tempo que me pareceu completamente recorde, hoje reuni-me uma vez mais com o chefe do Departamento Farmacêutico para lhe pedir mais algumas informações que preciso antes de começar a sério (a lista que tinha das farmácias em Timor não estava actualizada por exemplo, entre outras coisas que entretanto fui descobrindo que também não estavam). O Departamento Farmacêutico (pertencente ao Ministério da Saúde) funciona num edifício que neste momento não tem electricidade (há algumas semanas... talvez já tenha na próxima semana, ao que parece). Isso significa que não há computadores nem fotocopiadoras por exemplo (portanto estive a copiar a lista actualizada à mão). Significa também que não há ventoínhas (nem falemos em ares condicionados). Estão a imaginar a cena: 10h da manhã, uma temperatura perto dos 30 ºC com uma humidade relativa acima de 80%, e largas gotas de suor a escorrer da minha testa com a simples tarefa de copiar uma lista à mão... (vida dura esta...) A boa notícia é que estas instalações são apenas temporárias, o edifício novo já está pronto e a mudança prevista até ao final do ano... (parece incrível, não é? mas uma coisa é certa: não ouvi ninguém a queixar-se das condições de trabalho... talvez porque apesar de tudo ter um trabalho já seja uma enorme sorte).
A chuva quase parou mas os gatos continuam inquietos. Acho que anda qualquer coisa lá fora que está a assustar a mãe gata por alguma razão. Vou espreitar se é outro sapo, talvez seja esta a minha grande oportunidade...





Por vezes nem sabemos bem a sorte que temos...
ResponderEliminarTens de escrever mais, é que deste lado do globo há quem goste de te ler :-)
Gostei tanto...por várias razões...sei que entendes.Gosto muito do que escreves e como o fazes. Que bom sentir-te bem.
ResponderEliminarUm beijo enorme da tua Nikas
Felizmente não tenho que beijar sapos, mas fizeste-me lembrar a musiquinha do Paul McCartney...
ResponderEliminarDeste lado do mundo as coisas correm rápido, demasiado ... ainda assim travei para ler e comentar este espaço que confesso já ter saudades. Ainda me lembro do dia que fizemos o desenho da bonequinha, lembrei-me da máquina fotográfica, hoje em dia podia-se acrescentar elementos adicionais como por exemplo um galo de barcelos ;-)
Curioso que quando cheguei a UK, também acabei por arranjar uma bicicleta usada, mas que durou os anos que lá estive e o que eu me fartei de usar :-)
Beijinhos Mike
Quando cheguei a Eritreia comprei uma daquelas bicicletas de senhora a que chamei "maria". ia comigo para todo o lado: escritorio, piscina, compras.... (hojeando com o Bugaboo Bee da Anna :) )
ResponderEliminarQuando me vim embora deixei-a a uma amiga que por vezes a deixou a outra pessoa. Quando estamos longe, nessas vidas, e engraçado a naturalidade como as coisas vao passando de uns para outros....
aproveita a bicicleta e tudo o resto!