10/02/10

A senhora que abraça o mundo

Quando estamos numa ilha e o sol nasce e se põe no mar, como é que, através de uma única imagem, conseguimos ver a diferença? A verdade é que olhando para uma única fotografia, não é fácil distinguir... Isto foi uma conversa que tive há uns tempos atrás, com uns israelitas que conheci em Diu; um deles tinha tirado umas fotos ao nascer do sol e estávamos a ver o por do sol na praia, que ele afirmava ser exactamente igual em termos de tonalidades (comprovando a teoria com as fotos da manhã). Tentei descobrir as diferenças (nada como desarmar uma teoria alheia :-), mas acho que não fui capaz... Duas semanas depois, recordei essa conversa ao ver o nascer do sol por entre as palmeiras esta manhã...


Aqui é muito diferente... o sol também se põe no mar, mas nasce entre a densa vegetação característica do Kerala, a minha província preferida de todas as que conheci até agora na Índia. Lembrava-me que tinha gostado bastante quando visitei há um ano atrás, mas há um ano atrás tinha estado apenas no sul e pensava que talvez outros locais me encantassem de igual forma... sonhava com os palácios e a riqueza do Rajastão, com os vertiginosos Himalaias, com as praias paradisíacas de Goa... Todos esses locais são fantásticos, é verdade, mas as palmeiras, os rios, os barcos, o calor húmido, tropical e extenuante do Kerala atraem-me de uma forma inexplicável. 
Assim que cheguei ao Kerala, pensei que talvez passe mesmo aqui no sul as 7-8 semanas que me restam até ao final do visto. Tenho de voltar à capital de Goa para ir buscar o meu novo passaporte dentro de algumas semanas, posso prolongar-me um pouco mais por alguma outra praia, mas parece-me que já desisti de visitar a infinidade de locais que tinha planeado mais a norte, no interior. Talvez este calor esteja apenas a amolecer o meu pensamento e talvez daqui a uns dias me apeteça voltar para um clima mais fresco... tudo é imprevisível na Índia...
Ao contrário da minha primeira viagem à Índia, que foi uma viagem de descoberta voraz e rápida do maior número possível de locais (mas que adorei igualmente, um excelente aperitivo), desta vez tenho prolongado a minha estadia onde me sinto bem... É engraçado como tenho conhecido imensas pessoas exactamente assim, sem muitos planos à excepção da data final do visto... Ou com planos que se alteram todos os dias. Quando não temos muitos planos, o que acontece é que vamos falando com pessoas que vieram de outros locais e estamos constantemente a reformular as ideias...

Estou no sul do Kerala, numa pequena aldeia de pescadores chamada Amritapuri, a cerca de 2 horas de comboio a sul de Cochin, a cidade onde fica situado o primeiro túmulo do Vasco da Gama; talvez quem seguiu os relatos da minha viagem à Índia no ano passado se recorde de ter falado nisto. Portanto, estou quase no Tamil Nadu, a província mais a sul da Índia (de que também falei no ano passado, porque foi aqui que vim assistir ao casamento da minha amiga indiana...). A razão que me trouxe a este local em particular é porque estou a passar alguns dias num ashram...

"E o que é um ashram?" – perguntarão alguns. Talvez a melhor descrição de um ashram seja uma "comunidade espiritual", mas não quero que fiquem com a ideia errada quando utilizo a palavra "espiritual", porque não é num sentido religioso (é mais num sentido de evolução mental, mas talvez isto vos pareça ainda mais estranho...). Normalmente um ashram gira em torno de uma pessoa, digamos, um sábio, que posso descrever como alguém que pela sua experiência ou clarividência tem (ou teve) alguma mensagem para partilhar com o comum dos mortais (e outros consideraram que valia a pena seguir). 
Existem vários tipos de ashrams (e alguns deles centrados em pessoas ou ideias ou práticas que pessoalmente não me dizem nada, mas digamos que as pessoas procuram coisas diferentes na sua vida em geral e em diferentes fases da sua vida em particular... portanto certamente convirão a alguém). Sendo uma comunidade onde as pessoas vivem, para além de alguns rituais em que toda a gente pode participar (que já descrevo em seguida, a palavra ritual pode ser assustadora), habitualmente num ashram há algumas tarefas comunitárias de organização e manutenção das próprias instalações, como limpar, trabalhar na cozinha e coisas desse género.
Desde a minha primeira visita à Índia que tinha vontade de passar algum tempo num ashram (há uma descrição engraçada no livro Eat, Pray and Love – Elisabeth Gilbert, em que autora passa algum tempo num; penso que deve estar traduzido em português e recomendo) e escolhi este em particular porque admiro bastante a fundadora – uma senhora indiana chamada Amma (que significa literalmente "a mãe de todos"). Amritapuri é o nome da aldeia de pescadores onde a Amma nasceu e foi neste local que fundou o seu ashram na Índia.
Para além do ashram, a Amma está envolvida numa série de obras de caridade por todo o mundo, mas aquilo que me fascina é sobretudo a sua simplicidade e o facto de estar sempre a sorrir. Para além das suas palavras e histórias equilibradas e sábias que conta, o que a distingue sobretudo é a proximidade e afecto em termos de contacto humano e o seu abraço é famoso em todo o mundo – a Amma simplesmente envolve toda a gente num abraço caloroso e maternal... Logo no primeiro dia em que cheguei ao ashram, como todos os recém-chegados, pude conhecê-la e receber o seu abraço que é uma experiência bastante particular, sobretudo vindo de uma pessoa oriunda de um país onde existe uma clara segregação entre sexos e o contacto físico é algo que não acontece em público, principalmente no caso de uma mulher. Na Índia existem lugares próprios e separados para as mulheres na parte da frente do autocarro e há filas para o café e salas de espera para mulheres na estação dos comboios ("ladies only"), por isso é algo curioso que uma mulher, de uma baixa casta, percorra o país e o mundo a abraçar toda a gente que lhe aparece à frente. E ela fica horas seguidas a distribuir o seu darshan (o nome técnico desse abraço, com algumas palavras segredadas ao ouvido... por incrível que vos possa parecer, ela disse-me palavras em português; não estou a brincar, claro há alguém na fila que nos pergunta e diz à Amma de onde são as pessoas – ela não adivinha, não é nada de transcendente nem do outro mundo – mas ainda assim parece-me espectacular que uma mulher com uma origem tão humilde tenha aprendido a dizer, nem que seja apenas uma ou duas palavras em várias línguas). E horas são mesmo horas e horas, quer quando está no ashram, quer quando viaja... o seu record são 22 horas seguidas a abraçar pessoas...

Vamos então aos "rituais"... O meu dia típico no ashram começa às 5 da manhã, no templo, a ouvir uns mantras e cânticos. Tudo isto é evidentemente em sânscrito (língua antiga, não falada actualmente e que está na base de todas as línguas hindus, mas que continua a ser muito utilizada neste género de práticas; quem faz yoga, meditação e afins conhece certamente), portanto não percebo nada (há uns livritos com a tradução porque aquilo que é dito tem um significado, não se trata de palavras soltas sem nexo... eu é que ainda não me dediquei a esse assunto), mas para mim é muito relaxante ficar simplesmente sentada no templo concentrada a escutar (uma forma de meditação é a concentração num som repetitivo). No final, termina com uma espécie de cântico ao som de música com umas pandeiretas, que é a minha parte preferida. Isto demora cerca de 1 hora e depois é servido chai – homens e mulheres distribuem-se em filas separadas, empunhando as suas canecas para receber chá doce, com leite, quentinho. Por esta altura, o dia começa a clarear e vou ver o nascer do sol para junto do rio.

(digam-me se este local não é lindo?)
Como referi acima, é pedido aos visitantes e residentes (sim, porque há pessoas que moram aqui em permanência, incluindo muitos estrangeiros... alguns há vários anos) que realizem pelo menos 2 horas de serviço desinteressado a favor da comunidade. Desde que cheguei já trabalhei na cozinha a descascar vegetais (tinha tido um pequeno estágio no templo dourado, em Amritsar, se bem se lembram...), já estendi massa para pizza (há uma pequena "cantina internacional", onde normalmente apenas tomo o pequeno almoço, mas que serve vários snacks, como pizzas justamente) e já servi pequenos almoços (que é a minha tarefa preferida de todas estas). 

Associados ao ashram existem alguns serviços tais como escolas (algumas para os órfãos do tsunami, esta zona foi gravemente devastada pelo tsunami de 2004), uma universidade, um centro de reciclagem, um centro de pesquisa de medicina ayurvédica e um hospital onde trabalham voluntários. Para além da cozinha, costumo ir também algumas horas para a farmácia do hospital, verificar prazos de validade, arrumar medicamentos doados e coisas do género e conversar com a farmacêutica que lá trabalha, uma indiana da minha idade chamada Bina, amorosa, que estudou na universidade aqui e está na farmácia há 10 anos. Adoro conversar com ela e ela adora companhia, até porque fui a primeira farmacêutica verdadeira que alguma vez se foi voluntariar para ajudar nesta farmácia (aparecem enfermeiros e médicos para o hospital, mas não farmacêuticos e uma portuguesa também é uma coisa rara). Quando alguém aparece lá na farmácia e pergunta quanto tempo eu vou ficar, a Bina responde que eu vou ficar 2 meses, não sei como vou fazer quando me quiser ir embora... :-)
Junto ao ashram há uma pequena praia para onde podemos ir meditar ou ler ou qualquer outra actividade mais ou menos silenciosa (não é possível tomar banho porque há muitas correntes, por isso há uma parede de pedras que são usadas como bancos). Passo lá muitas horas a ler, porque estou completamente viciada num livro gigante, que ainda não terminei mas que também recomendo, Shantaram – Gregory David Roberts. O autor é australiano, mas o enredo do livro (que é a história verídica do autor) é passado na Índia. Portanto uma combinação perfeita para mim, que adoro ambos os países, e as descrições da Índia são fabulosas. De manhã e ao final da tarde, muita gente vai meditar ou fazer yoga para a praia.

O resto do tempo é passado a beber chai ou água de coco, a descansar, a meditar, a reflectir, a conversar com as pessoas, a escrever no blog, a ouvir música (tenho de fazer uma actualização na minha música do blog... tenho umas novas fantásticas, hiper relaxantes, que passo os dias a ouvir actualmente), na net (claro... nem sobreviveria...), tudo envolto numa imensa tranquilidade. Também passo algum tempo a subir escadas porque o alojamento dos visitantes fica nuns edifícios altos e o meu quarto fica no  ultimo andar de um dos mais altos (11º andar, mais precisamente, só para terem ideia da quantidade de gente que aqui vem); existe um elevador (2 até) mas está sempre uma enorme fila e subir 11 andares de escadas é uma óptima forma de abater as calorias que ingiro diariamente em forma de comida indiana deliciosa. A vista lá em cima compensa...

O meu quarto é um quarto para 4 pessoas e desde que cheguei apenas uma tem permanecido, uma canadiana que chegou 1 semana antes de mim (agora estamos só as duas). Muita gente fica apenas 1 ou 2 dias no ashram, sobretudo agora, que a Amma partiu para uma viagem pela Índia (ontem de manhã) e o ashram vai ficando deserto (ainda mais tranquilo). Há duas noites atrás dividimos o quarto com uma australiana e ontem de manhã descobri que ambas, a canadiana e a australiana, escreviam poesia, então estiveram a declamar alguns dos seus poemas... Como não escrevo poesia (quem sabe não me inspiro agora?) e a única coisa que escrevo é o blog em português que elas não percebem, não pude contribuir para esta tertúlia poética (felizmente, porque os poemas da australiana tinham uma força incrível, não sou assim tão dotada), mas ainda assim foi uma experiência enriquecedora.

Ainda não sei muito bem quanto mais tempo vou ficar por aqui. Comparando com os últimos dias, hoje o ashram está deserto e muitas das pessoas que conheço vão embora amanhã ou depois de amanhã... Por um lado, tenho vontade de conhecer um ou outro local novo e tenho também vontade de rever um ou outro local que visitei apressadamente no ano passado, mas por outro, parece-me que gosto disto (bem... algumas coisas não gosto, mas isso é um longa historia e quase tema suficiente para um novo post... senão não saio daqui hoje...) Decidi que só vou decidir o que fazer daqui a 2 ou 3 dias, por agora vou apenas aproveitar a tranquilidade, sem pressas, enquanto me derreto neste calor tropical...


Para alem disto, tenho algumas fotos novas... para quem ainda nao viu no facebook...
:-)

2 comentários:

  1. Oi linda, confirmo que o livro esta traduzido para portugues, eu li e realmente é fantástico.
    Para tua informação ela já tem outro livro chama-se Filha do Mar...
    Amei as fotos..
    Diverte-te. BJo

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  2. Já tinha saudades destas escapadelas por terras distantes. Vendo a tua tranquilidade faz-me sentir também mais tranquila. Obrigada pela msg de parabéns. Passei um dia delicioso por razões erradas, tive de ficar em casa com o meu filhote que resolveu deixar crescer 6 dentes de 1 vez, mas foi delicioso senti-lo adormecer encaixado em mim.
    De facto encontramos felicidade nos pequenos actos de amor.
    xoxoxo

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