Pondicherry (fotos aqui) é uma antiga cidade colonial portuária francesa, situada na costa este do sul da Índia (Tamil Nadu, a província mais a sul da Índia), banhada pelo mar da Baía de Bengala. Tal como aconteceu com Diu relativamente a Portugal, Pondicherry deixou de estar sob administração francesa há cerca de 50 anos, mas ainda conserva muitos traços coloniais característicos (talvez mais do que Diu até). Distinguem-se claramente duas zonas na cidade: uma zona francesa, colonial, mais "europeia" e uma zona indiana, ambas limitadas a leste por um passeio marítimo (que seria uma marginal fantástica para as minhas corridas matinais se não estivesse em obras e cheio de montes de terra e pedras).
Na zona francesa as ruas são mais largas (com nomes franceses), mais tranquilas, os edifícios mais brancos e melhor conservados e existem alguns cafés e lojas (não muitos) mais ao estilo europeu, digamos. A zona indiana, embora com ruas mais largas do que a maioria das restantes cidades indianas (e que foram rebaptizadas com nomes indianos) é mais desorganizada, mais barulhenta, menos branca. Ontem à tarde passeava tranquila e descontraidamente pela zona francesa, quando de repente comecei a ouvir buzinas incessantes e a ver motas a aproximar-se vindas de todas as direcções apercebi-me que tinha passado inadvertidamente para a zona indiana (ou seja, que o risco de atropelamento por uma mota, bicicleta, vaca ou procissão hindu tinha quadruplicado em apenas alguns metros) e que era altura de activar novamente todos os sentidos. Nessa transição percebi porque é que o simples acto de andar na rua na Índia é, por vezes, um pouco cansativo; não se trata apenas do calor (que nesta cidade em particular é aligeirado pela brisa marítima), é precisamente porque temos de estar alerta em todos os momentos a tudo o que nos rodeia, não por ser perigoso, mas porque há demasiadas coisas a acontecer à nossa volta o tempo todo e a ausência de passeios e de zonas pedonais obriga a estarmos constantemente atentos ao trânsito e a desviarmo-nos dos vários obstáculos que surgem pelo caminho (motas, pessoas, vacas, lixo, mini-esgotos) e simultaneamente a recusar os serviços dos insistentes dos condutores de rickshaws e afins (a uma taxa de 3 a 4 por minuto em certos locais).
Para além da marginal, existem algumas zonas verdes, nomeadamente um jardim central com algumas árvores em flor e como é fim de semana, há bastantes turistas (a maioria dos quais turistas indianos) a passear por aqui. Precisamente por isso, ontem de manhã quando cheguei todos os alojamentos estavam cheios e estive quase, quase a ir embora sem visitar a cidade (encontrei o hotel onde estou, por acaso, bastante longe do centro quando já me dirigia novamente para a paragem dos autocarros e, na realidade, já tinha pensado que seria o último onde iria perguntar se tinham quartos, ao final de mais de uma hora de busca infrutífera, de mochila às costas e a derreter). Depois de uma noite inteira no comboio, uma hora de pé no autocarro local e este passeio forçado a carregar 15 kg às costas, a verdade é que precisava de um duche, mesmo que fosse para seguir viagem umas horas depois. Felizmente tinham um quarto, bastante limpo até, fiquei surpreendida. Como se trata da zona indiana, devo ser uma das poucas turistas ocidentais a pernoitar ali (ainda por cima mulher e sozinha) de modo que recebo todas as atenções e salamaleques dos funcionários do hotel (hoje de manhã por exemplo, o senhor que estava a limpar as casas de banho insistiu, para meu horror, em cumprimentar-me com um vigoroso aperto de mão... como recusar?... :-)
Estar numa cidade destas tem algumas óbvias vantagens. Ontem fiz umas compras, numa das várias lojas de comércio justo (Cre'art) que existem por aqui. Existem também lojinhas de objectos feitos de material reciclado e muitos cafés e pastelarias, evidentes heranças da época colonial francesa. O meu pequeno almoço de hoje foi um croissant de chocolate e um capuccino em vez da tradicional dosa (que é o meu pequeno almoço preferido do sul da Índia – trata-se de um crepe muito fino, de farinha de arroz, servido com sambar, um molho picante que eu dispenso, e com chutney de coco que eu adoro). A dosa pode ser recheada com uma mistura de vegetais, masala dosa, ou com outras coisas, mas a verdade é que não me tenho aventurado muito a experimentar essas outras coisas porque um médico ayurvédico me disse que a comida picante não era boa para o meu organismo e que eu deveria evitar (como se isso fosse possível na Índia).
Na minha última visita ao sul da Índia, há pouco mais de um ano, Pondicherry estava incluída na lista original de locais a visitar, mas a verdade é que quando estamos na Índia apercebemo-nos de como as distâncias são enormes e de como por vezes levamos um dia inteiro a chegar a um local que até parece muito perto em km. Muitas vezes não há ligações directas e temos de mudar de autocarro em vários pontos do trajecto.
Escrevi o meu último relato de Amritapuri, de onde uns dias depois apanhei um comboio e um autocarro até a uma barragem (Neyyar Dam) perto de uma reserva natural na fronteira do Kerala com o Tamil Nadu, onde fui para outro ashram. Este outro ashram (Sivananda ashram) é mais dedicado à prática de yoga (algo que me estava a fazer falta no ashram da Amma, onde fiquei 10 dias no total) e organiza não só cursos para professores de yoga (de vários níveis) como também um programa a que eles chamam "férias de yoga" durante 2 semanas e que abrange todos os passos iniciais para principiantes. Mas para além disso, podemos em qualquer momento passar lá uns dias, porque há sempre aulas a decorrer, mesmo que não estejamos em nenhum programa. Curiosamente, o local onde fazia yoga em Lisboa segue exactamente esta escola (para quem não está dentro do assunto, há vários tipos de yoga e várias abordagens, para além de que yoga num sentido mais lato tem mais a ver com todo um estilo de vida e não apenas com colocar o corpo em posições elaboradas) portanto as aulas de yoga (2 aulas de 2h por dia) eram em tudo semelhantes às minhas aulas de yoga em Lisboa (suponho que as minhas professoras tiraram o curso num destes centros, que aliás, não existem apenas na Índia, o primeiro destes centros abriu no Canadá). Gosto muito deste yoga porque inclui vários exercícios de respiração e dá muita atenção ao relaxamento e não apenas às posturas, portanto é de facto muito relaxante.
Viajei para este segundo ashram com a minha companheira de quarto do primeiro ashram, uma canadiana chamada Michelle. É engraçado porque quando a conheci, achei que era uma pessoa que não tinha nada, nada a ver comigo e a verdade é que mal falávamos no início (quer dizer, éramos cordiais uma com a outra e eu até a considerava uma óptima pessoa para partilhar o quarto, mas apenas isso). Em Neyyar, voltamos a ser vizinhas, mas desta vez num dormitório de 36 pessoas... Para além da Michelle, reencontrei algumas pessoas que tinha conhecido no ashram da Amma (uma das quais a única portuguesa e uma das pessoas mais queridas que conheci até agora em viagem, a Lumia) e noutros locais (algumas das quais tal como esperava e outras perfeitamente por acaso, de forma totalmente inesperada, como uma francesa que tinha conhecido no Rajastão há mais de um mês atrás... nem tínhamos trocado emails porque achávamos que de certeza nos íamos reencontrar em Goa uns dias mais tarde, mas como eu fiquei mais tempo no Rajastão e fui a Diu, já não a apanhei; não há dúvida que as pessoas com quem nos temos de voltar a cruzar na vida, aparecem mais cedo ou mais tarde).
O local onde fica situado este segundo ashram também é magnífico (é uma barragem numa reserva natural com leões e outros animais; tanto quanto sei, os leões indianos estão praticamente extintos apenas existem alguns exemplares em algumas poucas reservas naturais) e a única coisa que me levou a encurtar a minha estadia é que ao final de 2 semanas em ashrams a verdade é que já estava um bocadinho cansada de todas as regras (comer a determinadas horas, apagar as luzes a determinadas horas, acordar a determinadas horas etc). No ashram da Amma tudo era mais flexível (principalmente as horas de levantar e de deitar eram mais ao nosso critério, apenas nos pediam que não fizéssemos barulho) e acho que se tivesse começado ao contrário teria ficado mais tempo no segundo ashram, mas desta forma já começava a sentir uma certa (o)pressão... O meu dia típico no Sivananda ashram começava também com meditação e mantras às 6h e a partir daí tudo tinha demasiados timings para mim: chai às 7h30, aula de yoga às 8h, refeição às 10h, serviço desinteressado das 11 às 12h30, chai às 13h etc... No ashram da Amma tinha decidido experimentar deixar de usar relógio (quem me conhece um pouco melhor sabe que é algo que uso sempre, mesmo em férias, não me perguntem porquê... e foi a primeira vez que o tirei desde que comecei a viajar) e o que comecei a sentir foi que andava sempre a correr de um lado para o outro para cumprir os horários estipulados e já estava a achar que tudo era uma obrigação de que só me apetecia escapar... Como o meu objectivo é sempre sentir-me bem e não em stress, ao fim de 5 dias decidi que era altura de deixar o local (não sem antes me oferecer uma massagem ayurvédica, daquelas com um fio de óleo aromático a escorrer pelo meio da testa no final, muito, muito relaxante e revigorante mas depois de 3 doses de champô ainda segui viagem com o cabelo bastante oleoso, tive de cobrir com um lenço).
A paragem seguinte foi já no Tamil Nadu, mais concretamente em Nagercoil, uma cidade totalmente fora do roteiro turístico (tão fora que nem aparece nos guias), onde já tinha estado no ano passado no casamento da minha amiga indiana Sujitha (acho que foi um dos pontos altos dos meus relatos do ano passado, se se recordam das descrições). Voltei um ano depois porque, quase por acaso, descobri que a Sujitha estava em casa novamente, desta vez de licença de maternidade. A criança só nasce daqui a um mês, mas foi tão bom rever a minha amiga com o marido e toda a família e ver as fotos do casamento... Só fiquei um dia porque já tinha um bilhete de comboio para seguir viagem até Pondicherry, mas eles levaram-me a passear pelas redondezas, a provar umas frutas novas para mim e, mais uma vez, fizeram-me sentir como parte da família.
Nota: Acabo de perceber que está um grupo de portugueses sentado numa mesa aqui perto, estão aqui há pelo menos meia hora e só agora me apercebi de que a conversa era em português (acho que estava tão concentrada a escrever que não estranhei estar a ouvir uma conversa numa língua mais familiar do que o habitual).
Uma das razões porque me atraso muitas vezes com os relatos do blog é porque acho que tenho sempre de os acompanhar com fotos. Só que nem sempre descarrego as fotos da máquina regularmente, portanto o que acaba por acontecer é que vou adiando os relatos até descarregar, organizar e seleccionar as fotos e o tempo vai passando e acabo por não escrever nada. Claro que não é a única razão, mas dei comigo a pensar que não podia publicar isto hoje de forma alguma, porque não tenho as fotos aqui. Depois pensei melhor e decidi que não ia esperar e portanto não incluo as habituais fotos hoje, mas colocarei online mais tarde. Em alternativa, incluí alguns links pelo meio e termino com um texto de Agustina Bessa-Luís que um amigo de longa data partilhou comigo há uns dias atrás e que decidi partilhar convosco (obrigada JP, gostei imenso!), e com uma música que uma outra amiga partilhou comigo precisamente no mesmo dia, como banda sonora (alguns amigos mais próximos chamam-me Mary, daí a razão. Obrigada C, adorei também!). Espero que gostem, boas leituras e até breve!
"Não é a nossa época propícia aos relatos de viagens, por banal que nos parece mudar de lugar com a rapidez do som e atravessar fronteiras de olhos fechados, tendo ao lado um mapa apenas consultado e uns óculos de lentes verdes. Mas se mudar de lugar é uma coisa cada vez mais possível em condições de dia para dia mais indiscutíveis, viajar, propriamente, vai-se tornando raro. O que é viajar? Começa uma pessoa por temer o conflito com a sua rotina, e isso é já atmosfera moral duma viajem. Depois vai cedendo à curiosidade, ao doce pastoreio da sua própria alma pelos campos desconhecidos – e já penetra a sensação dum país que até aí lhe era oculto e que era para si destituído de tudo que não fosse simples geografia.
A viagem é a intimidade do importuno. Tudo o que não preferimos em quaisquer outras circunstâncias de fixação prolongada – uma paisagem, as criaturas, um acontecimento – é-nos oferecido para que o tomemos com esse amor espontâneo que não se pode evitar por que vive da surpresa em que se comprometeu. Muita gente muda de lugar, passa de um a outro continente, retém na memória factos sobrevindos em diversas latitudes. Mas a viagem, com o seu mistério e a sua intimação à consciência, com as suas alegrias que nascem inexplicavelmente dum golpe de vento na poeira sobre uma ponte, duma sensação de vida isolada e profunda quando atravessamos uma terra estrangeira – ah, essa viagem poucos a podem experimentar!"
In Embaixada a Calígula, de Agustina Bessa-Luís.





Como é bom deixar fluir o tempo sem o controlar..tudo se ajusta na perfeição..mais cedo ou mais tarde.O relógio de pulso é uma ferramenta actual pela necessidade de controlar os minutos.Quando não tens horários a cumprir habituas-te a "ler" as horas pela claridade, assim como te apercebes da chuva pelo vento. Deixar fluir e interpretar a natureza é tão simples...beijinhos e boas energias.
ResponderEliminarQuerida Mary!
ResponderEliminarAo ler os teus relatos consigo quase ver-te pela Índia! :-) Beijinhos grandes