Começo este relato na penumbra... Desde há alguns anos, o Nepal depara-se com o problema da migração em massa das populações rurais para a capital, em busca de melhores condições de vida. Se em 2001 Kathamndu tinha menos de 1 milhão de pessoas, hoje em dia (menos de 10 anos volvidos) tem mais de 2 milhões, isto se não considerarmos toda a zona metropolitana – segundo as mais recentes estimativas, vivem no vale de Kathamndu cerca de 4 milhões de pessoas. O grande problema é que as infra-estruturas não acompanharam o crescimento exponencial da população e portanto a cidade está literalmente a "rebentar pelas costuras". O que se agrava ainda mais pela instabilidade política em que o país vive e pelas inúmeras greves nacionais convocadas quase semanalmente (em que as estradas são cortadas, não há transportes públicos, não há recolha de lixo...). A rede pública de electricidade não é suficiente para abastecer toda a população de forma contínua, de modo que há apenas 12 horas de electricidade disponível por dia, com um desfasamento nas diferentes zonas da cidade. Nos primeiros dias que passei em Kathmandu, a zona onde fica situado o meu hotel tinha electricidade a partir das 18h até meio da noite e depois mais umas horas no período da manhã.
Agora, a electricidade só regressa à meia noite, mas temos umas horitas da parte da tarde. Na época das chuvas, a situação melhora um pouco porque a produção de energia aumenta nas centrais hidroeléctricas (mas ainda assim, piora de ano para ano porque cada vez há mais gente a consumir)... neste momento estamos na primavera e é precisamente esta a estação em que o nível dos rios é mais baixo, porque no Nepal, a primavera antecede a estação das chuvas.
Ainda assim, e apesar de tudo o que os guias de viagem dizem acerca de Kathmandu (horrível, poluída), a verdade é que gosto bastante desta cidade (começando pelo nome que me soa bem, fico logo predisposta a gostar :-), bastante traquila naquilo que uma cidade desta dimensão pode ser tranquila e sinceramente não me parece assim tão poluída... pelo menos quando comparada a outros muitos locais que visitei (a medalha de ouro em termos de poluição urbana para mim contínua a ser N. Delhi, aí o ar é denso de fumo e quase irrespirável). O único problema a meu ver é mesmo o excesso de turistas (mas também estou precisamente a residir na zona mais turistica, não me posso queixar, tem a vantagem de ter tudo perto, mas torna a experiência mais artificial).
Ainda assim, e apesar de tudo o que os guias de viagem dizem acerca de Kathmandu (horrível, poluída), a verdade é que gosto bastante desta cidade (começando pelo nome que me soa bem, fico logo predisposta a gostar :-), bastante traquila naquilo que uma cidade desta dimensão pode ser tranquila e sinceramente não me parece assim tão poluída... pelo menos quando comparada a outros muitos locais que visitei (a medalha de ouro em termos de poluição urbana para mim contínua a ser N. Delhi, aí o ar é denso de fumo e quase irrespirável). O único problema a meu ver é mesmo o excesso de turistas (mas também estou precisamente a residir na zona mais turistica, não me posso queixar, tem a vantagem de ter tudo perto, mas torna a experiência mais artificial).
Atravessei a fronteira indo-nepalesa há pouco mais de uma semana, após uma longa viagem de mais de 3000 km desde Goa até ao norte da Índia, que demorou quase 3 dias, entre comboios e autocarros. Três noites seguidas passadas em comboios. Para o último troço da viagem comprei um bilhete na carruagem com ar condicionado... um verdadeiro luxo, a que resisti durante os 4 meses em que andei a viajar por toda a Índia... se é verdade que me soube bem porque estava cansada e a viagem é bem mais tranquila quando se paga 4 ou 5 vezes mais (sem barulho e sem gente a entrar e a sair constantemente, entre passageiros e vendedores ambulantes), também é verdade que perde metade da piada... Uma das coisas que adoro nos comboios indianos (na classe sleeper, mais popular, sem ar condicionado) é ao constante desfile de vendedores de chá e café (um barrilzito de inox com uma torneirita numa mão e uma pilha de copos de papel na outra...). Para além das bebidas quentes (e frias) há também um constante desfile de refeições e snacks e de todas as "comidas que não dão jeito nenhum comer no comboio" que possam imaginar, mas que são exactamente aquilo que tem mais saída. Nos nossos comboios ou autocarros, as pessoas comem sandes e coisas secas, que não sujam as mãos e que são fáceis de manipular, certo? Na Índia não, o que se come no comboio (e na estação do comboio e em qualquer lado) é exactamente aquilo que se comeria sentado à mesa em casa: arroz ou chapati, um saquinho de plástico com um molho, outro saquinho de plástico com outro molho, comido à mão como é evidente. No início estranha-se, depois entranha-se (no meu caso, fiquei fã das "comidas que não dão jeito nenhum comer no comboio", é tudo uma questão de flexibilidade mental, sobretudo porque uma longa viagem de comboio é uma óptima oportunidade para experimentar diferentes especialidades a diferentes latitudes :-)
Quando se atravessa a fronteira com o Nepal torna-se evidente que o Nepal é efectivamente um país muito mais pobre do que a Índia. Apesar de saber disso, não pensei que fosse algo tão evidente de imediato. A segunda primeira impressão foi de que era um país mais limpo (menos sujo) do que a Índia... também bastante evidente. Não se vê tanto lixo à beira da estrada, as pessoas não atiram lixo pelas janelas dos autocarros ou pelo menos não atiram tanto. Apesar de que aqui em Kathmandu há um esgoto a céu aberto cheio de lixo bastante impressionante... e por vezes nas ruas não há recolha de lixo, de modo que se vê lixo acumulado em pilhas nalgumas ruas. Mas isso é particularmente em Kathmandu, que está sobrepovoada, não nos restantes locais por onde passei.
A minha primeira paragem no Nepal foi uma cidade que fica a apenas alguns km da fronteira com a Índia – Lumbini. Lumbini é tão insignificante que nem estaria no mapa se não tivesse sido o local onde há cerca de 2500 anos nasceu aquele passaria a ser conhecido como Buda. O escritor Herman Hesse tem um livro muito bonito que conta esta história, Siddartha (que recomendo). Mas apesar de ser um local de culto e de receber a visita de bastantes peregrinos e de alguns turistas, Lumbini continua a ser bastante insignificante como cidade (seguramente tem menos de 12 horas de electricidade por dia) e nada mais tem a visitar do que um parque onde os diferentes países no mundo onde está presente a religião budista são convidados a construir um templo (já existem alguns, outros em construção, outros em projecto).
O parque é bastante extenso e agradável, embora seja um pouco seco e não disponha de muitas zonas de sombra. O parque tem uma enorme população de borboletas, que foi aquilo de que mais gostei, mais bonitas e coloridas do que qualquer um dos templos. Li que existem mais de 600 variedades de borboletas no Nepal.
O parque é bastante extenso e agradável, embora seja um pouco seco e não disponha de muitas zonas de sombra. O parque tem uma enorme população de borboletas, que foi aquilo de que mais gostei, mais bonitas e coloridas do que qualquer um dos templos. Li que existem mais de 600 variedades de borboletas no Nepal.
Da fronteira até Lumbini viajei num mini-autocarro local. A viagem demorou apenas cerca de 2 horas, mas foi um pouco insólita (depois de 3 dias seguidos a viajar, eu própria devia estar com um ar insólito). Contei 17 lugares sentados para passageiros dentro do dito veículo... não consegui contar os passageiros todos, mas ultrapassariam certamente os 50. Também aqui no Nepal há uma certa deferência para com os estrangeiros (para com as estrangeiras principalmente) de modo que várias pessoas do autocarro se mexeram para me arranjar um espacito sentada. Pouco depois entrou uma senhora muito velhinha, enfezada e minúscula e incrivelmente ninguém se mexeu para lhe arranjar um espacito para ela. Eu ia tão apertada que não me conseguia levantar, mas a senhora ia com tanta dificuldade em pé que acabei por sacudir as pessoas em volta e fazer-lhe sinal para ocupar o meu lugar (mesmo assim ela teria de passar por cima de metade das pessoas do autocarro). Quase milagrosamente a senhora lá conseguiu passar, eu é que não me conseguia mexer dali de qualquer forma, por isso fui o resto da viagem de pé entalada entre as pernas da senhora, as pernas do senhor em frente e a janela. Mas a senhora ficou tão agradecida que levou o resto da viagem a fazer-me salamaleques de agradecimento, a tentar falar comigo em nepalês e a dizer a toda a gente que entrava no autocarro que eu lhe tinha dado o lugar (pelo ar que as pessoas faziam, imagino que seria isso). Depois percebi que a razão porque a senhora ficou tão sensibilizada é porque de facto ninguém se levanta para dar o lugar a ninguém... até mesmo mães com bebés ao colo iam de pé (uma delas até estava a amamentar a criança, em pé, naquele autocarro aos solavancos e ninguém se levantou...). O que não deixa de ser surpreendente porque os nepaleses são em geral muito amigáveis e calorosos...
Vegetei em Lumbini durante 2 dias e depois segui viagem para Kathmandu. Supostamente a viagem deveria ter demorado 6 ou 7 horas, mas a cerca de 30 km de Kathmandu deparamo-nos com uma fila de trânsito onde ficamos parados umas 3 ou 4 horas mais. A diferença em relação à Índia é que não há nervosismo, toda a gente é muito mais tranquila na estrada... A estrada é péssima, tem apenas uma faixa para cada lado e muitos troços em mau estado (e trata-se de uma das principais ligações à capital, nem imagino o estado das estradas secundárias). Parte da estrada é paralela a um vale por onde corre um dos principais rios do Nepal. Fui intercalando os capítulos do meu livro com espreitadelas pela janela, até que a minha atenção se prendeu nalguns rafts que desciam o dito rio, o que espicaçou a minha vontade de experimentar rafting, algo que não tinha sequer planeado nesta viagem.
Mal cheguei a Kathmandu, portanto, precipitei-me para as agências que organizam rafting e acabo precisamente de regressar da minha primeira experiência – 2 dias a descer o rio Bothe Koshi. É um percurso muito bonito, que começa a poucos km da fronteira com o Tibete... Foram 2 dias espectaculares e intensos, uma outra forma de conhecer o país... adorei!! (adorei tanto que estou a pensar repetir num outro rio mais a oeste, desta vez 3 dias...) Parece-me que o blog vai ter de passar para segundo plano durante uns tempos... :-)











Minha linda tu faz os raftings que entenderes, mas não deixes de vir ao blog se faz favor.
ResponderEliminarDepois como é que eu viajo ?
Andava um bocado atrasada nas leituras, mas hoje lá consegui recomeçar...
ResponderEliminarConcordo que o Siddartha é um livro que deve fazer parte das leituras de qualquer pessoa ;-)
Fazer a volta ao mundo sozinha não era grande aventura, mas agora que incluíste o rafting, SIM! eheheh
beijinhos, boas viagens! **