Olhando para este mapa, alguma coisa vos salta à vista?
Obviamente que quando planeei vir ao Nepal, olhei várias vezes para o mapa... mas foi preciso chegar aqui para que um nepalês me perguntasse se alguma vez tinha reparado que Portugal e o Nepal têm o mesmo formato ("não! nunca tinha reparado! que giro!")... dois rectângulos, um de pé, outro deitado, um plantado à beira mar, outro plantado à beira das montanhas... Depois concluímos que o Nepal ocupa uma área um pouco superior, não chega ao dobro. Mas achei o máximo! (achei o máximo não só que ele soubesse onde era Portugal como ainda por cima que tivesse reparado nesse pormenor). Ao contrário daquilo que acontece na Índia, no Nepal habitualmente as pessoas conhecem Portugal, uma vez mais graças aos nossos embaixadores do reino da bola (porque ao contrário daquilo que acontece na Índia onde o desporto nacional é o cricket, no Nepal o pessoal segue o futebol internacional). Costumo vir a um café em que um dos senhores me confessou ontem que era admirador do Cristiano Ronaldo e do José Mourinho...
Supostamente amanhã iria iniciar uma caminhada até ao campo base do Annapurna - 8091 m, um dos "14", com mais de 8000 m no mundo, ocupando o 10º lugar da lista. Não é o mais alto, mas foi o primeiro dos 14 a ser conquistado, em 1950. Estou emocionadíssima porque acabo de descobrir que o nosso João Garcia está precisamente numa expedição ao Annapurna neste momento (estava aqui a tentar ver se o Annapurna já estava na lista dele). É exactamente o último que lhe falta dos 14!! Que emoção!
Certamente (e infelizmente) não me irei cruzar com o João, porque vou fazer um pouco menos, só estou a planear ir até ao campo base (ABC - Annapurna Base Camp, a 4130 m). Não tenho material nem capacidade física para mais (na realidade, nem sei se tenho para tanto...) Para vos dizer a verdade, estive quase a desistir da ideia porque quando cheguei a Pokhara (cidade de partida para os treks do Annapurna) pareceu-me um local tão turisticamente artificial que só me apetecia ir embora e não fazer caminhada alguma. Mas depois falei com algumas pessoas e pensei que não podia vir ao Nepal e não avistar um dos "14". A expedição ao campo base do Everest é mais complicada em termos logísticos (é necessário voar até a um ponto mais perto), até ao campo base do Annapurna dá para fazer de mochila às costas, sem guia e parece que as paisagens são fabulosas (mais tarde dar-vos-ei a oportunidade de confirmar - a bateria da máquina já está carregada!). Espero que o mal da altitude não me impeça de atingir o objectivo. Para já, o único precalço é uma greve nacional de que tive conhecimento há pouco, que vai ter como consequência uma paralização dos autocarros amanhã... ou seja, em príncipio já não posso começar amanhã a minha pequena expedição (sem autocarro local, não consigo chegar ao ponto de entrada no parque, a cerca de 2 horas de viagem de Pokhara). Sorte a vossa, assim tenho tempo de actualizar o blog antes da partida :-)
Hoje passei o dia a tratar das formalidades burocráticas associadas (registo de trekking e permissão de entrada no parque nacional) e a fazer as últimas compras. Não posso levar muita coisa porque vou subir de mochila às costas, sem carregadores, ao longo do caminho há guesthouses onde é possível pernoitar e comer (claro que os preços vão aumentando à medida que se vai subindo... também tudo tem de ser transportado até lá). Com todos os preparativos, o meu entusiasmo foi crescendo ao longo do dia, realmente esta história da greve foi um balde de água fria (ainda para mais porque significa que vou ter de passar mais um dia nesta cidade de que não gosto assim muito). Em princípio este circuito demora entre 8 e 10 dias a completar. Ontem conheci um rapaz francês no meu hotel que fez em 6 dias... por isso tudo é possível. Nos primeiros dias é possível "esticar" um pouco mais, ao que parece, mas muita gente opta por caminhar apenas no período da manhã porque está bastante calor (mesmo em altitude, à noite arrefece um pouco). Relato completo dentro de alguns dias, portanto.
A viagem entre Kathmandu e Pokhara (200 km) demorou pouco mais de 10 horas. Houve um acidente na estrada (que tem apenas uma faixa para cada lado; estamos a falar da estrada que liga a capital a uma das principais cidades do país), de modo que o autocarro ficou parado cerca de 3 horas numa entorme fila até que desobstruíssem a via... Espectacular a tranquilidade com que as pessoas ficam à espera... sai tudo do autocarro para beber chá (chá com leite, igual ao chai indiano, mas que no Nepal se pronuncia "tchiá") nas chafaricas à beira da estrada... tudo sem stresses... como eu gosto...
Com todas estas viagens intermináveis, o Nepal é o verdadeiro paraíso para quem gosta de ler... Não me lembro de ler tantos livros em tão pouco tempo em nenhuma outra altura da minha vida (ao longo de toda a viagem, mas principalmente na Índia e aqui) Em Kathamandu e Pokhara há livrarias por todo o lado, milhares de livros (novos ou em segunda mão) que ainda por cima são baratíssimos (relativamente aos preços dos livros em Portugal então nem há comparação, mas mesmo em termos absolutos são bastante baratos). Tenho comprado/trocado livros quase diariamente... passo os dias a explorar as livrarias... se tiverem lido alguma coisa que valha a pena ultimamente, aceito sugestões (posso dar algumas sugestões também, claro :-) Hoje comecei a ler este...
No Nepal, tal como na Índia, os lugares dos autocarros locais não se restringem a dentro do autocarro. Há lugares também em cima do autocarro e, nas cidades, também há lugares de "pendura" em todos os pontos do autocarro onde é possível alguém ir pendurado (e onde é impossível também)...
No primeiro dia que passei em Pokhara, há uns dias atrás, fui com umas amigas a um rio perto daqui. E pela primeira vez na vida (pais, por favor saltem esta parte!) andei em cima do autocarro :-) (não estava tão cheio, não sei se dá para ter a ideia pela foto) O máximo! É apenas necessária atenção aos fios eléctricos que cruzam a estrada... mas é uma experiência a não perder!
A viagem foi até a uma aldeia a cerca de 1 hora daqui, onde passa um rio e dá para nadar, porque a água é muito limpa (ao contrário da água do lago de Pokhara). Está bastante calor aqui durante o dia, por isso é uma forma interessante de passar o dia.
O lago de Pokhara também é interessante, mas nesta altura do ano há uma névoa permanente que não deixa ver a outra margem e as montanhas em volta na totalidade... ainda assim, o por do sol é bonito e dá para umas corriditas em volta (já experimentei). Se tiver de ficar por aqui amanhã (como parece que vai acontecer, agora bloquearam a rua mesmo aqui em frente ao local onde estou e passou um grupo de manifestantes), faço uma expedição fotográfica pelas redondezas.
O novo ano nepalês (2067) celebra-se dentro de 2 dias e o primeiro dia do ano coincide com um marco importante da minha viagem - 6 meses! Nada mal... Em princípio não haverá qualquer relato comemorativo no blog, porque espero estar nessa altura a caminhar pela montanha...
Na verdade, espero que a próxima actualização do blog seja o relato da expedição (bem sucedida) ao ABC... Boa sorte João Garcia e boa sorte Mariana! :-)








E nós desejamos uma boa expedicao.
ResponderEliminarBjinhos
Jerusa & Marco
Já estiveste a altitudes superiores... mas aí com "hojas de coca" para ajudar...
ResponderEliminar:)
GL
Mariana,
ResponderEliminarTambém te desejo uma boa expedição e quero, principalmente agradecer-te o postal de aniversário, gostei muito! Obrigada por no meio de tantas coisas novas e interessantes ainda teres tempo e lembrança de me enviar um belo presente de aniversário. Obrigada!Bjs,
Catarina