20/04/10

Diário da ascenção ao ABC (Parte I)



Dia 1 (12/04/2010)
Pokhara - Nayapul - Ghandruk (1940 m)

Afinal, consegui começar a caminhada na data inicialmente prevista. A greve que se anunciava ontem foi desconvocada e por volta das 8h estava a apanhar um autocarro que me deixaria de mochila às costas à beira da estrada, numa pequena aldeia a cerca de 2h de Pokhara - Nayapul. Nayapul fica a 1070 m de altitude, o meu objectivo (Annapurna Base Camp, ABC) fica a 4130 m, o que significa uma subida de cerca de 3 km ao longo dos próximos dias. Existem vários caminhos possíveis para subir. Na verdade, utilizei um dos menos habituais porque me enganei (não foi bem um engano, foi mais uma falta de atenção... não tinha olhado bem para o mapa e acabei por seguir uma indicação errada). Confesso que não seria a única vez neste percurso (uma vez que não contratei nenhum guia, com o meu péssimo sentido de orientação, talvez tivesse sido boa ideia ter estudado o mapa com mais atenção, de facto).
Caminhei cerca de 6 h nesse dia (nem imaginava que seria um dos dias mais curtos). Como comecei a caminhar um pouco tarde, apanhei as horas de mais calor... A primeira parte do percurso foi relativamente fácil (tirando o calor), porque é um percurso plano, sempre ao longo de um rio. A paisagem é sobretudo de campos cultivados e vêm-se búfalos e burros de carga pelo caminho. 

Tudo é transportado por burros ou por carregadores até às aldeias na montanha (desde comida a garrafas de gás e tudo aquilo que possam imaginar). Os carregadores caminham com um peso inacreditável às costas (por vezes cargas de 40 ou 50  kg) durante 6 ou 7 horas por dia, é impressionante. A maioria dos turistas que faz estas caminhadas também contrata carregadores para carregar a sua bagagem; normalmente vão muito à frente carregados e os turistas leves atrás (nota: uma mulher sozinha a fazer este percurso sem guia nem carregador é algo extremamente raro e alvo de surpresa... a pergunta habitual é "onde é que estão os teus amigos?"). 
Admito que um carregador facilita a vida, mas para mim também era um desafio conseguir fazer assim, nunca tinha feito uma caminhada de vários dias de mochila às costas. Tive de cortar bastante na bagagem, quando sabemos que vamos ter de carregar com tudo a subir durante vários dias não é difícil...  Mesmo assim, podia ainda ter reduzido um pouco mais, foi só um treino para as próximas. Para além do desafio físico, a ideia de fazer esta caminhada era também para funcionar como uma espécie de retiro solitário e de encontro com a natureza (depois de vários meses de intensa interacção interpessoal na Índia).
Ao contrário daquilo que muita gente possa pensar, viajar sozinha não significa passar os dias na mais completa solidão... antes pelo contrário. Na verdade, trata-se da melhor forma de conhecer pessoas e de fazer novos amigos. Acho que nunca conheci tanta gente interessante num período de tempo tão curto como nos meses que passei a viajar "sozinha" na Índia. Quem viaja sem companhia apenas permanece sem companhia se verdadeiramente quiser (e às vezes quer-se e é difícil). Há muito mais interacção com outras pessoas e troca de informações...

A parte mais difícil do percurso foram quase 3h a subir cerca de 600 m, numa escadaria interminável (mais de 4000 degraus ao sol, nada fácil... devo ter bebido uns 3 litros de água pelo caminho). No final dessa escadaria, a aldeia onde passaria a primeira noite - Ghandruk. 
As únicas pessoas que encontrei a fazer o mesmo percurso nesse dia foi um grupo de estudantes nepaleses, que evidentemente acharam imensa piada ao facto de eu estar sozinha e me fizeram companhia durante essas quase 3 horas (tornando a ascenção bem mais fácil). Eram super simpáticos e fizeram-me milhares de perguntas sobre Portugal (algumas das quais tão rebuscadas que nem sabia a resposta).

Cheguei a Ghandruk por volta das 16h, bastante cansada e com dores nas costas, pensei que não conseguiria fazer nada no dia seguinte. Ghandruk é uma aldeia de tamanho razoável que se estende ao longo de uma colina. Os meus amigos ficaram numa das primeiras guesthouses à chegada mas eu decidi andar um pouco mais. A vista é espectacular em toda a aldeia; mesmo em frente à guesthouse onde acabei por passar a noite vê-se o pico Annapurna sul (7219 m). Nestas aldeias, depois do por do sol (um pouco antes das 19h) não há verdadeiramente nada para fazer, para além de que quem normalmente aqui chega está razoavelmente exausto da caminhada. Acho que me deitei por volta das 20h. 

PS - em Pokhara comprei uma mistura de frutos secos (tâmaras e coco, com uma ou duas amêndoas e cajus pelo meio) porque achei que era um snack bastante energético para levar. É óptimo, estou viciada!


Dia 2 (13/04/2010)
Ghandruk - Sinuwa (2360 m)
Acordei com o nascer do sol a iluminar o Annapurna sul. E bem contente por ter ficado nesta guesthouse (Shangri La). A vista é espectacular e as pessoas são tão simpáticas... Muito simples mas muito limpo. O preço dos quartos nestas aldeias é muito, muito barato (cerca de 1 euro por noite por pessoa) porque o negócio deles é mais o preço das refeições e os suplementos (duche quente, aquecimento quando se começa a subir e está frio). O que é compreensível porque o que é caro é transportar os consumíveis até a estas aldeias remotas. Os preços vão aumentando exponencialmente com a altitude (mas ainda assim, é barato comparativamente à Europa).
Para além dos picos nevados, a paisagem por aqui continua a ser de plantações em socalcos, em tons de castanho e verde.

Comecei a caminhar por volta das 8h, um pouco tarde porque assim que o sol nasce começa a fazer bastante calor. Ao contrário daquilo que tinha pensado no dia anterior, estava bastante em forma para a caminhada, sem muitas dores nos músculos. Ainda assim fiz muitos alongamentos e exercícios de aquecimento antes de iniciar (com aquele cenário maravilhoso, na mais completa tranquilidade...).
A primeira parte do percurso é a subir até a uma outra aldeia, Komrong (2250 m), mas nessa altura ainda estava fresquinha. Depois passei uma parte relativamente fácil, uma descida de  cerca de 400 m (claro que se torna um pouco frustrante pensar que tudo aquilo que estava a descer de um lado iria ter de subir de outro), ao que se segue a travessia um rio e estamos em Kimrong-Khola. Aí parei para descansar e conversei um bocado com 2 americanos que vinham do ABC e as suas descrições deram-me ânimo extra para continuar, apesar do calor que se fazia sentir a essa hora.

A partir desta altura, vi muito pouca gente no percurso. Depois da primeira grande subida (Chhomrong, 2170 m) começamo-nos a sentir mesmo no meio das montanhas. Lembro-me de que uma das coisas que reparei foi novamente na enorme quantidade e diversidade de borboletas. As borboletas foram uma presença quase constante, aliás, durante todos estes dias... mesmo em altitude.

Chhomrong é uma aldeia enorme. Demora-se quase uma hora a percorrer, em descida e depois volta-se a subir até à aldeia seguinte - Sinuwa. Parece muito perto, achei que iria ser muito fácil, mas o problema de Sinuwa é que há 2 Sinuwas e a distância entre elas é uma subida de cerca de 300 m... para terminar o dia... Cheguei à Sinuwa "de cima" (2360 m) quase morta, ao final de mais de 7 horas de caminhada. Fiquei na primeira guesthouse que encontrei, maravilhada porque havia água quente grátis e sobretudo feliz porque meia hora depois se levantou uma violenta tempestade (que é frequente conforme se vai subindo em altitude); a partir do final da manhã começam-se a ver nuvens em volta dos picos, que se vão tornando mais negras com o avançar das horas e na maioria dos dias começa a chover a meio da tarde.
Nesse dia, todos os outros hóspedes da minha guesthouse estavam de regresso do ABC. Uma vez mais, bons conselhos e um entusiasmo contagiante... Apesar da chuva e do vento, ainda não estava muito frio em Sinuwa, foi uma das coisas que me disseram, para me preparar e aproveitar a última noite "quentinha"...


Dia 3 (14/04/2010)
Sinuwa - Deurali (3200 m)


O privilégio de estar a fazer este percurso deve-se em grande parte aos magníficos cenários com que me deparo diariamente. A partir de Sinuwa pude contemplar o pico do Machhapuchhre ao nascer do sol (o pico à direita na foto). Apesar de não ser o pico mais alto ("só" 6997 m) para mim foi sempre o mais impressionante porque pelo formato dá a ideia de que é de facto enorme (e é de facto enorme, apenas não o mais alto). Nesta foto, o pico da esquerda é o Hiun Chuli, um piquito mais modesto, apenas 6434 m.

O objectivo do dia era ambicioso, quase 1000 m de subida até Deurali, imediatamente abaixo do MBC (campo base do Machhapuchhre), que fica a 3700 m e é a última etapa antes do ABC.  
No início do dia conheci o primeiro dos meus companheiros com quem chegaria ao ABC no dia seguinte - o Vincent, um francês que também estava sozinho. Fizemos todo o percurso juntos nesse dia e acabamos por ter de partilhar um quarto duplo em Deurali, porque todos os simples estavam ocupados quando chegamos.
Ao contrário de ontem, começo a sentir o cansaço e algumas dores musculares de dois dias de caminhada intensa. Mas toda a gente disse que esta parte do percurso era mais fácil, tirando a altitude que dificulta um pouco as coisas a partir de certo ponto (o fôlego fica mais curto, é necessário parar para recuperar com mais frequência... nada demais, mas sente-se um pouquinho).  
Ao longo do dia, nota-se uma clara diferença na paisagem à medida que se sobe. Começamos numa área de floresta, com uma vegetação densa e terminamos numa zona árida e seca, cheia de rochas, onde há imensas quedas de água.

 
Ao longo do percurso, temos de atravessar alguns cursos de água (alguns bastante fortes até) e a temperatura vai diminuindo consideravelmente (a única coisa que aquece é o exercício da subida). Mais um dia de cerca de 7 horas de caminhada, mas o objectivo está cada vez mais perto, a cerca de 1000 m...
No relato anterior contei-vos que o João Garcia, o mais importante alpinista português estava numa expedição à conquista do Annapurna. Apesar disso, sempre achei que seria muito improvável encontrá-lo. Aliás, atendendo ao facto de que o nosso pico mais alto está apenas a 2351 m acima do nível do mar, esta altitude não é de facto o local mais provável para encontrar qualquer outra alma lusa... E não é que, para minha total surpresa, encontrei uma? Na guesthouse onde passamos a noite, conhecemos um casal luso-irlandês, o Bruno e a Angela. E estava formado o quarteto que partiria à conquista do ABC no dia seguinte, com duas almas lusas :-)

Cenas dos próximos capítulos: a conquista do ABC!... em breve... (tenho de fazer render... depois de conquistar o ABC, o objectivo agora é conseguir ultrapassar os 50 seguidores do blog :-)

3 comentários:

  1. Adorei subir este bocado contigo, confesso que já sentia a falta do exercício físico!!

    Fico à espera do próximo dia, beijocas da je

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  2. Fico entao 'a epsera do proximo relato.

    Aposto que o Joao Garcia estava so 'a espera que fosses indo 'a frente, para abrires caminho e ele ter a certeza que era seguro, hehehe.

    beijos!

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  3. Aguardo ansiosamente a parte II... e III e IV, e todas as outras :-)
    Continuação de boa viagem !

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