Dia 4 (15/04/2010)
Deurali (3200 m) - ABC (4130 m)
Começamos a caminhada a partir de Deurali antes das 7h da manhã... a água estava tão horrivelmente gelada quando acordei que foi uma tortura lavar os dentes.
A distância que separa Deurali do acampamento base do Annapurna não é longa, mas tem de ser percorrida mais lentamente por causa da altitude. O percurso é bastante fácil até, uma subida suave e constante, nada de escadas nem de desníveis íngremes.
Durante o trajecto atravessam-se encostas de glaciares (risco de avalanche, mas são trajectos muito curtos) e praticamente não existe vegetação. É tudo muito árido, com os picos nevados como cenário.
Ao fim de cerca de 2h de caminhada a passo lento, avista-se o MBC (Machhapuchhre Base Camp). Falei-vos ontem do Machhapuchhre, é um pico mais baixo (6997 m) mas que tem uma forma em "rabo de peixe", com o cume muito íngreme, parece muito mais inacessível do que os outros em redor e é, por isso, bastante impressionante.
(o acampamento base do Machhapuchrre são umas casitas azuis que podem ver na foto ao fundo, acima da mochila que está ao meu lado; nesta foto não se vê o Machhapuchhre propriamente dito, que estaria do meu lado esquerdo)
Apesar da altitude, quando o sol nasce, aquece um pouco...
No MBC parámos para uma bebida quente e para descansar um pouco. Demoramo-nos mais do que o habitual para ir aclimatizando à altitude. O MBC fica a 3700 m.
Toda a minha vida pensei que borboletas e joaninhas fossem insectos extremamente sensíveis... sabia que em altitude não existiam mosquitos, mas se me perguntassem que insectos é que poderia encontrar aqui certamente que borboletas e joaninhas não estariam no topo da minha lista. Pois bem, ambas as espécies voam alegremente a 4000 m de altitude nesta zona (algumas joaninhas no chão tristemente esborrachadas pelas botas dos caminhantes :-(, mas muitas outras vivas e coloridas... A única espécie de flor que se vê aqui é uma flor lilás, que também existe em abundância, sempre rodeada por borboletas.
A segunda (e última) parte do trajecto foi mais lenta... A altitude obriga a paragens mais frequentes. O percurso é lindíssimo, através de um vale onde em toda a volta se erguem os enormes picos nevados (que com o passar das horas vão ficando envoltos numa densa camada de nuvens). Quando o sol está descoberto, a temperatura é bastante suportável, mas arrefece consideravelmente quando as nuvens o tapam, ainda que por breves momentos.
A partir de uma certa altura começa a vislumbrar-se o ABC em frente... Esta foi a minha parte favorita do trajecto, sem dúvida... Todo o cenário, o entusiasmo crescente do nosso grupo ao avistar os primeiros telhados azuis ao fundo (em todo o percurso, telhados azuis são sinónimo de aldeia à vista), só mais um esforço...
Finalmente!! Que emoção!!
Apenas um pequeno esclarecimento... Este é o ABC "turístico", o acampamento base verdadeiro (aquele onde as expedições ao Annapurna acampam) fica a 4300 m de altitude, um pouco mais acima.
Nota: Por falar nas expedições ao Annapurna (e avançando um pouco no registo, mas por razões válidas), para quem não sabe, o dia 17 de Abril de 2010 tornou-se numa data memorável na história do alpinismo português. O João Garcia atingiu o cume do Annapurna e tornou-se no 10º alpinista no mundo a completar a ascenção aos 14 picos acima dos 8000 m, sem oxigénio suplementar. Se já era motivo de orgulho por si só, a minha emoção é dupla quando penso que estava lá tão perto... (enfim.. mais ou menos perto... a minha expedição não é proeza nenhuma se compararmos... :-)
A 4130 m também existem algumas tendas e 4 guesthouses onde se pode pernoitar. Chegamos por volta das 12h e os cumes já eram praticamente invisíveis... muitas nuvens, nevoeiro e ameaça de chuva. Foi assim durante toda a tarde que passei no restaurante da guesthouse, a beber chá quentinho, enrolada num cobertor, a ler, a escrever as notas do meu diário e a conversar com os meus novos amigos. A temperatura nesta altura do ano chega aos cerca de -12 ºC durante a noite (imaginem nas tendas e lá em cima... isto é só a metade da altura do Annapurna propriamente dito...).
Durante todo o tempo que passei no acampamento base, não senti qualquer mal de altitude. Senti-me um pouco mais lenta, mas estava frio por isso tinha várias camadas de roupa, acho que era mais por isso do que devido ao menor conteúdo de oxigénio do ar... (na verdade estive sempre super bem disposta, nem acreditava que estava ali, após 4 dias de caminhada intensa pelas montanhas...)
Ao final da tarde, para nossa surpresa, as nuvens dissiparam-se e pudemos contemplar as montanhas ao por do sol... Lindo... incrível... não há palavras (nem mesmo fotos, pelo menos as minhas...)
Um dia que ficará para sempre gravado na minha base de dados de recordações felizes... (para fazer o download em dias em que o sol brilha menos...)
:-)
Cenas dos próximos capítulos: o nascer do sol no ABC e a descida.













Admiro a tua coragem!
ResponderEliminarE o teu lindo sorriso é contagiante...
Tenho de me pôr em forma
Bjs
Tia Zé
Obrigada Mariana
ResponderEliminarpor transmitires tão bem um pouco desse 'cheiro' tão suave no dia da Terra!
Bjs
Lena
Quem me dera ver isso tudo e estar contigo neste momento...
ResponderEliminarBEIJINHOS da Margarida Girão...