Há exactamente um ano atrás fiz uma excursão ao deserto profundo da Austrália...
Desta vez estou no deserto profundo do Turquemenistão...
A paisagem muda um pouco mas os camelos são parecidos... (os camelos da Austrália foram importados do Afeganistão, por isso não diferem muito dos de cá).
O deserto de Karakum, no Turquemenistão, ocupa uma vasta área do país e, à excepção de uma estrada, uma linha férrea, algumas povoações minúsculas (que sobreviveram ao sentido estético do antigo presidente – ler Parte I) e camelos, não tem mais nenhuma espécie de animação.
Imagino a pergunta que se formula neste momento nas vossas mentes... o que é que fomos fazer ao deserto então? (não fomos beber "chá do deserto", que isso é mais ali para os lados da R. Augusta... nota: esta piadinha é meia privada :-) A razão da nossa visita ao deserto foi por um lado atravessar o país de sul para norte até à fronteira com o Uzbequistão, por outro lado visitar um dos cenários mais invulgares do Turquemenistão... a cratera de fogo, que fica a umas 4 horas de carro desde Ashgabat.
Pouco depois de sair de Ashgabat rumo a norte, entramos imediatamente no deserto. Durante a maior parte do percurso não é exactamente um deserto cheio de dunas de areia (como a palavra deserto evoca), é um deserto porque não existe nada, tem um terreno arenoso e vegetação seca e baixa.
Passamos por uma aldeia onde as mulheres fabricam tapetes de lã tradicionais e onde várias crianças corriam à nossa volta para lhes tirarmos fotografias (e talvez pela primeira vez nesta viagem senti umas enormes saudades de Timor...).
(reparem nas antenas parabólicas, até aqui no meio do nada!)
Mas a partir de um certo ponto... eis o verdadeiro deserto!
A história das crateras no deserto de Karakum não é consensual. Há quem diga que são artificiais, há quem diga que surgiram devido a explosões de lençóis de gás natural... segundo o guia que nos acompanhou são naturais (mas segundo o Lonely Planet, são artificiais). Visitamos 3 crateras (parece que só existem estas 3). Uma delas está cheia de água (tem um lençol de água por baixo), outra contém umas lamas borbulhantes no fundo e a terceira, mais impressionante, está permanentemente em chamas... (mais uma chama eterna portanto...). A explicação é que nesta cratera há fugas de gás natural e alguém teve a ideia de hastear fogo lá para dentro (alguns dizem que foi nos anos 50, outros dizem que foi nos anos 70...), portanto desde então que essas chamas são alimentadas pelo gás natural. Digamos que é uma fornalha imensa com uns 200 m de diâmetro, não sei precisar, mas é imensa...
E se é impressionante de dia, mais impressionante fica à noite, um clarão de luz ardente no meio do deserto...
Chegamos ao por do sol e a ideia inicial era ficar a acampar perto da cratera. O nosso guia armou a tenda e cozinhou um churrasco... Seguiu-se um jantar em volta da fogueira regado com vinho turquemeno (que faz lembrar vinho Moscatel) e vodka (para o caso de nos termos esquecido que estávamos num país de inspiração russa) e muita conversa.
O Oleg contou-nos um pouco da sua vida e da história do Turquemenistão (algumas das coisas que escrevi no post anterior)... não deixo de pensar na sorte que tenho de ter nascido em Portugal quando ouço estes relatos. Estava um frio de rachar e um céu estrelado lindo... a minha sorte é que não sou grande apreciadora de vodka (leia-se, de vodka pura e dura) e fiquei-me pelo vinho e pelo chá... (o Pedro amaldiçoou a vodka no dia seguinte)
Claro que na visita nocturna à cratera tivemos de tomar precauções extra para não cambalearmos direitinhos lá para dentro... :-)
Como estava de facto muito, muito frio, o nosso guia sugeriu pernoitarmos antes numas "casas de chá" que havia à beira da estrada um pouco mais longe, portanto recolhemos o acampamento e seguimos viagem aos solavancos pelas dunas do deserto (não sei como não ficamos atascados na areia ou pior, capotados na areia!). Chegamos à primeira "casa de chá" e eu saí com o guia para supostamente ver o local (nesta fase eu ainda imaginava que era uma espécie de restaurante ou casa de pasto onde também alugavam quartos)... até acredito que servissem chá lá dentro (havia uns bules na cozinha) mas o ar das várias senhoras que ali encontramos fazia-me mais lembrar outra coisa (assim de repente... um bordel?!) E o guia perguntava-me "queres ficar aqui ou na outra casa de chá?", bem, eu não sabia bem como era a outra (nesta fase já imaginava que fosse semelhante) mas tudo aquilo tinha um ar... Acabamos por seguir para a segunda casa de chá...
Aí eram só homens, nada de meninas (só eu...). Isto foi completamente surreal porque reparem... passava da 1h da madrugada, estávamos no meio do nada e o local para dormir proposto era o chão de uma casa de pasto aberta ao público (mas os restaurantes e casas de pasto nestes países têm tapetes fofinhos a revestir o chão... ainda assim era o chão, onde os clientes se sentam e era suposto ocuparmos um canto aí e dormirmos até à manhã seguinte). Tendo em conta a temperatura lá fora e a temperatura dentro do estabelecimento (onde ardia uma lenha num forninho) não dava para resistir (e aquilo também não tinha assim tão mau ar, era mais o estar num espaço onde entravam e saiam clientes...). Mas foi mesmo assim... e posso dizer que dormi a noite toda bem quentinha lá num canto, enrolada no meu fantástico saco-cama de seda (que recomendo vivamente em viagem, aliás, para quem não conhece). Acordei no dia seguinte com a casa cheia de
clientes ao meu lado a comer dograma (sopa de pão e carne típica do Turquemenistão) e manti (uma espécie de raviolis grandes de carne) e acho que só quando perceberam que era estrangeira olharam um pouco mais... (de resto é super vulgar entrarmos num restaurante à beira da estrada e estar lá pessoal a dormir no chão, certo?)... Como é evidente não havia duche, tomamos o pequeno almoço e seguimos viagem...
A caminho da fronteira com o Uzbequistão, fizemos ainda uma breve visita ao sítio histórico de Kunya-Urgench, com alguns edifícios interessantes e uma visita ao mercado local onde gastamos os últimos manats turquemenos.
Atravessamos a fronteira com o Uzbequistão por volta das 17h. Os guardas do posto fronteiriço Uzbeque ainda era melhores do que os Turquemenos... um deles sorriu abertamente com a sua dentadura de ouro e disse logo "Portugal? Benfica!!", claro (o Pedro ainda começou a falar no Sporting, mas reparem que a primeira coisa que o senhor disse foi Benfica, nada de Figos, nem Cristianos Ronaldos, nem nomes de equipas mixurucas... :-)
PS - A despedida do Turquemenistão coincidiu também com a despedida dos meus 32 anos... Na realidade, passei o meu aniversário em Khiva, já no Uzbequistão, cumprindo a tradição que estabeleci quando fiz 30 anos de, a partir daí, passar sempre o meu aniversário num país diferente. Obrigada por todas as mensagens, ainda não tive oportunidade de agradecer pessoalmente a todos (a ligação à internet continua a não ser grande coisa), mas fica desde já um agradecimento "colectivo"... Fico contente por comprovar uma vez mais que tenho imensa sorte! De Khiva (onde tive direito a 1 fatia de bolo da mercearia local e soprei um fósforo que valeu por 33 velas), beijinhos e abraços (e algumas saudades)!
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

















Essas crateras são fenomenais... nunca tinha ouvida falar. E é engraçado que, na foto, ainda estás com o lencito... ja era o hábito, não é?
ResponderEliminarSó acho mal essa história do Benfi$%$%$%^ca... nem consigo dizer o nome dessa coisa. E' só porque gosto muito de ti que não dou já um tiro no teu blog, hehehe!
Já tinha visto um documentário do National Goegraphic com essas crateras em fogo, mas não tinha fixado onde eram. Para mim era quase irreal, coisa de filme, que só uns fotógrafos privilegiados e aventureiros têm o prazer de ver. Agora sei que é bem real, já localizo no mapa e sei que os meus sobrinhos também tiveram esse privilégio (e fizeram por tê-lo, claro!):-)
ResponderEliminarbjs. Tia Zé
SLB Glorioso SLB !
ResponderEliminarDormir em restaurantes, só tu mesmo...eh eh
Oi Marianne! Fico feliz por ver que estás bem. Tu e o teu espírito aventureiro:-) Tive pena de não nos encontrarmos quando estiveste em Portugal. Adoro ler o teu diário de bordo! Fico fascinada com algumas coisas que desconheço. Desejo-te tudo de bom e que faças uma excelente viagem. Já agora Parabéns atrasados! Beijinhos
ResponderEliminarBem,...realmente..só de imaginar depois de estarem deslumbrados a contemplar a luz do fogo..entrarem no deserto, de noite,...o vosso guia tb era aventureiro!!!!!
ResponderEliminarEu e todos os que seguimos o teu blog batemos palminhas no final de soprares a velinha :-)..não ouviste????
bjs e boa continuaçao!Estou a adorar estas actualizações diárias ;-)
Olá Mariana :) que espirito lindo e aventureiro ... os teus relatos são muito bons para quem quer viajar ....
ResponderEliminarParabéns atrasados :)e um resto de boa viagem!
Susana Antunes
Não há dúvida, se vocês aí não estivessem, haveriam imensas coisas realmente bonitas e bastante interessante a partir dessas bandas que me passariam ao lado...
ResponderEliminarEstou a adorar, já se tornou consulta obrigatória e "viciante" este teu blog !
PS - Já agora, o Pedro, não "dá ao dedo" aí no teu Mac ??
Pedro, dos "Girões"
Beijos e abraços, dos grandes !!
Epá o tlm ainda não tem o teu aniversário, pelo que, aqui vão as felicitações sinceras de um ano cheio de intensidade (acho que não será dificil). Bjs
ResponderEliminarSérgio Rodrigues
Os Avós e a Cleusa ficaram muito impressionados (no bom sentido, claro!) com as fotografias da cratera a arder.
ResponderEliminarHabitualmente imprimo o texto para eles ficarem com ele, e levo o computador para irem vendo as fotografias ao mesmo tempo - fica muito melhor do que se imprimisse as fotos, até porque não gasto tinteiro e posso ampliar as fotos.
Tudo de bom para vocês.
Bjs
Tia Zé
No slide-show de fotos pequenas que aparece no teu blog em cima à direita, aparece sempre um galo, porquê?
ResponderEliminarOlá Mary,
ResponderEliminarfinalmente tive 10 mintos para retomar a tua viagem...amiga és uma inspiração! Adorei o teu propósito de a partir de agora todos os anos o aniversário num país diferente. Espero que as "amigas do p...ma" possam estar as 3 juntas em alguns :) beijos grandes (hoje de Tavira). Saudadinhas. p.s.-em que país estarás a comemorar os teus 100º aniversário?