12/11/09

Pelo vale dos assassinos... Alamut

Conta a lenda que espalhados pelos vales das montanhas Alborz, no norte do Irão, existiam mais de 50 castelos que abrigaram em tempos os elementos de uma seita oculta - os ismailis, cujo líder espiritual era um homem chamado Hasam-e Sabbah. Os membros da organização eram recrutados através de rituais em que, completamente embriagados com haxixe e lindas mulheres, eram persuadidos a seguir as ordens do seu líder, que supostamente os conduziriam ao paraíso. A missão destes homens consistia essencialmente em raptar e assassinar dirigentes políticos ou religiosos da época e, uma vez que agiam sob o efeito do haxixe, ficaram conhecidos como hashish-iyun (os “pedrados” em haxixe), de onde deriva a palavra “assassino”. Esta organização teve o seu período de glória no século XII, tendo sido forçados a render-se durante as invasões mongóis no final do século XIII, que arrasaram tudo à sua passagem, incluindo os magníficos castelos dos assassinos.

Hoje em dia subsistem vestígios de alguns desses castelos nos vales de Alamut e Shahrud, e parte destas ruínas podem ser visitadas. Existem, aliás, várias equipas de arqueólogos e de historiadores a trabalhar na sua recuperação há já vários anos, mas os trabalhos estão longe de ficar concluídos, até porque algumas das estruturas foram construídas sobre outras existentes, tornando menos fácil a sua recuperação sem danificar aquilo que está por baixo.

O ponto de partida para a visita aos castelos foi a cidade de Qazvin, a oeste de Teerão. A estrada que liga as duas cidades corre paralela às montanhas Alborz e este pano de fundo serve desde logo como aperitivo para a excursão propriamente dita. Mas quando começamos a subir a montanha a partir de Qazvin, deparamo-nos com um cenário ainda melhor…


O suposto guia que nos arranjaram no hotel para a visita aos castelos era um rapaz novo (assim um bocado pintarolas ;-) que não falava uma única palavra de inglês, embora nos tivessem garantido no dia anterior que sim, mas bem… O carro começou logo a dar problemas no meio da estrada por entre as montanhas, pouco depois de termos saído de Qazvin, ao som de um CD com os mais recentes sucessos da música pop persa. Diagnóstico: faltavam uns parafusos nas rodas (vários, uma das rodas estava mesmo quase a saltar…).


A partir daí fomos forçados a parar em todas as terrinhas remotas por onde passamos, em visita obrigatória a todas as oficinas existentes à procura dos ditos parafusos (que pelos vistos só se conseguiam arranjar em Qazvin mesmo… mas felizmente nenhuma roda saltou até ao final do dia… o que nós não sabíamos era que este seria apenas o primeiro problema do carro; foi bom porque pelo menos aprendemos como se diz parafusos para as rodas do carro em farsi, nunca se quando essa informação poderá vir a ser útil :-)



À terceira ou quarta volta do CD, avistamos o castelo de Alamut… pouco depois a estrada deixou-nos num ponto a apenas 400 degraus de distância…


Este é um dos castelos onde estão a ser efectuados trabalhos de recuperação e tivemos a sorte de conversar com um dos elementos da equipa que falava impecavelmente inglês e nos deu várias informações. Os trabalhos de recuperação no castelo de Alamut decorrem há cerca de 10 anos mas apenas 20% do castelo está desenterrado (já assim nos pareceu espectacular). Tem várias estruturas sobrepostas, construídas em diferentes épocas. Para além das actividades mais obscuras atribuídas aos residentes deste castelo, o local serviu também como centro de astronomia (um castelo no meio de uma montanha deserta certamente seria uma localização privilegiada para observações astronómicas) e abrigou em tempos uma biblioteca de medicina natural e fitoterapia (que infelizmente foi destruída na altura das invasões mongóis). A vista a partir do castelo é simplesmente fabulosa!


Seguimos para o segundo castelo – Lamiasar. Pelo caminho, uma breve paragem no lago Evan (esta paragem tinha sido estrategicamente negociada com a pessoa que nos arranjou o guia… em todos os relatos que encontramos de pessoas que visitaram este local, tinha-lhes sido cobrado um extra para visitar o lago… um desvio de apenas 8 km!! Ainda bem que consegui convencer o tal senhor a incluir o lago no preço, porque parecia lindíssimo nas fotos, mas ao vivo também não era assim nada de especial…).


Ao final da tarde chegamos ao castelo de Lamiasar. Para chegar ao castelo a partir da estrada, é necessário subir pelas rochas durante uns 20 minutos e depois ainda bastantes degraus. Na altura, questionamo-nos como é que eles subiriam com os cavalos, mas depois explicaram-nos que os cavalos pernoitavam mais abaixo.


Fosse por estarmos já no final do dia, fosse pelo acesso menos fácil, é certo que não encontramos mais ninguém a visitar este castelo (no castelo de Alamut havia um grupo de turistas iranianos), apenas dois rapazes que lá trabalhavam (nas obras de recuperação). Um deles ficou entusiasmadíssimo com a nossa chegada e, embora não falasse uma única palavra de inglês, fez-nos uma vista guiada gestual impecável. Levou-nos a todos os recantos do castelo, até nos arranjou um folheto com uma breve explicação em inglês, ofereceu-nos tâmaras secas e no final ainda agradeceu a nossa visita com um enorme sorriso e vénias de cortesia, como se fossemos nós que lhe tivéssemos estado a fazer um favor. O que só comprova que quando as pessoas querem fazer alguma coisa pelos outros, não existem barreiras… na maioria das vezes somos nós próprios nos impomos limitações...
Este castelo está num estado de degradação mais avançado (ou de recuperação menos avançada) do que o de Alamut, mas tem também uma história muito interessante. Para além de ter sido um dos maiores desta zona, foi estrategicamente construído numa montanha separada das montanhas vizinhas por três rios, que corriam a este, oeste e sul; logo, era apenas possível penetrar no castelo pelo lado norte, tornando a sua invasão virtualmente impossível. Para além disso, com toda essa água em redor e graças aos eficientes sistemas de reserva (por todo o lado existem vestígios de cisternas e de condutas de água), era possível cultivar no interior da fortaleza e, dessa forma, os residentes conseguiam resistir durante bastante tempo a qualquer cerco. Na altura das invasões mongóis este castelo levou vários anos a render-se aos invasores.


O regresso a Qazvin foi um pouco atribulado porque entretanto caiu a noite e o carro foi abaixo várias vezes nas subidas da estrada de montanha… mas, ao fim da 15ª volta sempre do mesmo CD (quando já conseguíamos quase cantar algumas das músicas em farsi) chegamos sãos e salvos e não tivemos de passar a noite ao relento… se bem que, na verdade, uma noite ao relento naquelas montanhas teria sido talvez melhor do que o hotel ranhoso onde ficamos na cidade (e ignorando o frio pelo menos teríamos podido observar as estrelas :-)

Um dos problemas do nosso hotel (e não só, mas para mim o principal) é que não tinha duche no quarto (aliás, o duche até era só no andar de baixo), o que complica um pouco as coisas quando temos de andar com um lenço a cobrir o cabelo e com uma túnica a tapar a forma das ancas. Num outro cenário, pode até ser tolerável (já me tive de adaptar a situações piores), mas aqui já roça o limite do logisticamente impraticável… (talvez não tenha sido por acaso que não vi mais nenhuma mulher na casa de banho).

Próxima etapa: Esfahan

PS – há alguns problemitas técnicos com a internet no Irão, por isso neste momento apenas consigo colocar algumas das fotos online (que são exactamente essas poucas que estão intercaladas no texto). Assim que tiver oportunidade, colocarei o resto…

E, já agora, em resposta a algumas pessoas que me escreveram na última semana: não senti nenhum tremor de terra por aqui (nem ouvi nada relativamente a isso) e saímos de Teerão sem qualquer problema no dia das manifestações… ;-)

1 comentário:

  1. A história do carro a desfazer-se fez-me lembar alguma coisa... hummm... já sei... Cuba! A mesma marca, o mesmo modelo, só mudou a cor e a matrícula!
    :)
    GL

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