Não conheço muita gente que tenha visitado o Turquemenistão (na verdade, à excepção do meu irmão e de mim, parece-me que não conheço mesmo mais ninguém...), por isso talvez seja interessante contar-vos um pouco acerca da história mais recente deste país (que também ajuda a explicar algumas das curiosidades que descrevo em seguida).
O Turquemenistão surgiu como país independente a 27 de Outubro de 1991, após a desintegração da URSS; portanto, acaba de comemorar 18 anos de história (pós-soviética). É um país riquíssimo em gás natural e petróleo (quando digo riquíssimo, é verdadeiramente riquíssimo), mas tal como acontece com a grande maioria dos países riquíssimos em recursos naturais, toda esta riqueza não se reflecte exactamente na vida dos cidadãos. Ainda assim, os turquemenos não parecem viver mal e, embora o salário médio mensal ronde os 300 dólares, têm gás, água e electricidade de borla e cupões de combustível anuais para uso pessoal e comercial que, no caso da maioria das pessoas que vive na cidade e não percorre grandes distâncias, é mais do que suficiente para um ano (e se precisarem de mais, 1 litro de gasolina custa cerca de 0,25 dólares, já bastante inflacionado relativamente há poucos anos atrás em que custava cerca de 1/5 desse
valor).
Até aqui parece a história de um país normal, mas a verdadeira história peculiar deste país começa com o presidente que comandou o destino do Turquemenistão durante 15 anos desde a independência até à sua morte em 2006, Niyazov, que era, na altura do colapso da URSS, o presidente do partido comunista do Turquemenistão. Logo após a independência este presidente baniu todos os outros partidos da cena política e declarou que todos os cidadãos lhe deveriam passar a chamar Turkmenbashi (= "líder dos Turquemenos"). Volvidos 3 anos desde o seu desaparecimento e muito embora não tenha deixado grandes saudades (ao que parece) ainda hoje as pessoas se referem a ele dessa forma.
Mas isto foi apenas o início... Desde mudar nomes de ruas e edifícios (para colocar o seu nome), até mudar os nomes dos meses do ano (um dos quais tem o nome da sua mãe, que morreu por ocasião do tremor de terra que varreu a capital do país em 1948), até mandar erguer estátuas de ouro de si próprio, muitas são as indicações de que o senhor sofria no mínimo de uma boa dose de narcisismo. Uma das decisões mais "impopulares" foi quando se começou a construir a estrada que ligava o norte ao sul do país, em que Niyazov sobrevoou o país para ver as obras e ao ver uma aldeia perdida no meio do deserto, achou que estragava a paisagem e mandou simplesmente deitar abaixo a aldeia...
Parece que Niyazov foi um grande fumador durante a maior parte da sua vida (morreu de ataque cardíaco, segundo a versão oficial). Em 2003 teve um primeiro ataque cardíaco e teve de sofrer uma intervenção cirúrgica e nessa altura os médicos disseram-lhe que ou parava de fumar ou já não duraria muito mais. Ele seguiu o conselho (e não durou muito mais na mesma) e quando retomou a actividade fez um comunicado ao país em que chamou a atenção para os malefícios do tabaco e lançou uma campanha contra os fumadores, que incluiu a proibição de fumar em todos os edifícios públicos e espaços exteriores (estranhamente é permitido fumar no interior dos cafés e restaurantes) e mandou construir um "passeio da saúde" nas montanhas que circundam Ashgabat, que todos os estudantes e funcionários públicos têm de percorrer no dia da Independência (e não sei se em mais alguma data). Até onde pode ir a preocupação com a saúde dos
cidadãos...
Niyazov escreveu também um livro "Ruhnama", que conta a sua própria versão da história, cultura e costumes do Turquemenistão e que foi imposto como livro de leitura obrigatória para os turquemenos (para passar o exame de condução por exemplo, há que demonstrar que se conhece o conteúdo não do código da estrada mas do Ruhnama). Infelizmente é muito grosso e pesado e só encontramos à venda o volume II em inglês, mas parece que dá para comprar pela net, se estiverem interessados...
Ashgabat, capital do Turquemenistão, continua a ser portanto uma cidade de culto ao Turkemenbashi, com edifícios megalómanos de mármore (tudo é infinitamente branco em Ashgabat, feito de mármore importado de Itália...) ostentando a sua imagem, para além de várias estátuas de ouro (o monumento da neutralidade, na foto, tem uma estátua de ouro com 12 metros de altura!)
É uma cidade nova com ruas largas, limpíssimas e organizadas e tem a maior concentração de fontes que já vi na vida, incluindo a maior fonte do mundo, segundo consta. Ashgabat foi totalmente arrasada a 6 de Outubro de 1948 por um tremor de terra que atingiu 9 na escala de Richter e foi toda reconstruída desde então. Sobreviveram apenas 6 edifícios ao tremor de terra, mas neste momento apenas 3 subsistem. Um deles fica praticamente em frente ao Hotel Ashgabat, onde ficamos alojados, um hotel de estilo soviético...
Neste momento é virtualmente impossível visitar o Turquemenistão como turista sem recorrer a um tour numa agência, que foi o que fizemos. As nossas datas em Ashgabat coincidiram precisamente com o congresso anual do petróleo e gás, portanto encontramos imensos estrangeiros na cidade que iam ao congresso e que encheram a maioria dos hotéis. Parece que por essa razão a nossa agência teve alguma dificuldade em marcar um hotel para nós e quando nos informaram que iríamos ficar neste hotel a senhora com quem mantínhamos contacto disse "mas tenham em atenção que é um hotel soviético", nós tememos o pior... Mas na verdade o hotel era normalíssimo, um bocado velho e austero, talvez, mas bastante normal. A única coisa estranha era que a casa de banho não tinha lavatório, apenas uma torneira comprida na banheira, mas já estou habituada a aceitar diferentes conceitos de casas de banho. No primeiro andar do hotel funcionava um night club
com música local aos berros das 20 às 23h (hora de recolher obrigatório na capital do Turquemenistão). Até nos apareceram lá umas "miúdas" a bater à porta a meio da noite (deviam ter sido chamadas por algum vizinho, mas segundo o Pedro que foi à porta não valiam a pena...)
Começamos então por uma visita a Ashgabat... os táxis são bastante baratos, mas acabamos por andar a pé a maior parte do tempo, porque os taxistas não compreendiam as indicações que lhes dávamos. Houve uma excepção de um taxista que falava perfeitamente inglês porque é espectador assíduo de um talk show qualquer americano (esqueci-me de referir que todo o turquemeno que se preze tem uma, senão várias, antenas parabólicas e centenas de canais internacionais disponíveis). Quando perguntou onde era Portugal nós dissemos que era na Europa, ao lado de Espanha, ele perguntou se conhecíamos a Penélope Cruz (que pelos vistos tinha sido entrevistada no dito talk show onde disse que gostaria de visitar os países menos turísticos, então ele agora está à espera que ela vá ao Turquemenistão...).
Em Ashgabat há militares por todo o lado, que muitas vezes nos impedem de tirar fotografias a determinados sítios sem se perceber exactamente porquê... As seguintes foram tiradas do topo do Arco da Neutralidade (porque lá de baixo, chamaram-nos logo a atenção).
Como vêm são só edifícios espectacularmente brancos, palacetes, ministérios (devem ter uns 50 ministérios de tudo e mais alguma coisa, todos em edifícios monumentais, assim a dar para o piroso/novo rico), fontes de todos os tamanhos e feitios e estátuas de todas as personalidades dignas de nota, incluindo Lenine e Niyazov, obviamente. A cidade tem aliás edifícios claramente da era soviética e outros claramente da era Turkmenbashi. Não consegui fotografar o Ministério da Educação mas trata-se de um edifício em forma de livro aberto (possivelmente o Ruhnama...), é o máximo!
E esta é a maior fonte do mundo, que se prolonga por várias avenidas...
Embora tenha adorado o Irão, devo dizer que, ao fim de 2 semanas, foi simpático poder destapar o cabelo e poder finalmente vestir a minha roupa normal... Se bem que tive de comprar um barrete e umas luvas porque nos avisaram que durante a travessia do deserto iríamos apanhar temperaturas quase negativas. Luvas de pelo de coelho que me fizeram espirrar a tarde inteira, mas eram muito melhores, como a senhora do mercado me explicou por gestos. E ter uma internet a funcionar em pleno (embora lenta), sem sites bloqueados, já agora... Às vezes não damos o devido valor à sorte que temos... :-)
Preparados para a travessia do deserto? Segue-se a Parte II do Turquemenistão...
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Fazes com cada comentário mais bizarro!! Fartei-me de rir com a do taxista/Penélope Cruz e a das miúdas, que o Pedro não achou grande coisa!
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