19/11/09

Vestígios da primeira dinastia persa... Persepolis



O zoroastrianismo era principal culto religioso presente na antiga Pérsia (e em toda a região da Ásia central) antes da chegada dos árabes e do islamismo. É ainda hoje praticado no Irão por uma pequena comunidade que vive sobretudo na zona de Yazd, no sul do país, constituindo uma das poucas religiões minoritárias reconhecidas e aceites no Irão (para além do cristianismo e do judaísmo).
O zoroatrianismo foi a primeira religião monoteísta no mundo, prestando culto a uma única entidade divina, Ahura Mazda, um deus invisível que não é representado por nenhum símbolo ou ícone. A única representação é uma figura alada, Fravahar (que não representa deus, porque como mencionei atrás este não tem qualquer símbolo; representa apenas a parte espiritual do homem). Esta figura (acima) é um homem velho que simboliza a experiência e a sabedoria e tem três camadas de penas nas asas que simbolizam a pureza do pensamento, do discurso e da acção.
Uma vez que não existe símbolo do deus, os seus seguidores do zoroastrianismo eram instruídos para rezar na direcção da luz. A única fonte de luz dominada pelos povos antigos era o fogo, por isso os zoroastrianos construíram os seus templos em volta de uma chama que mantinham ininterruptamente acesa (uma chama eterna).
A ideia fundamental do zoroastrianismo é a dualidade: em tudo o que existe, coexiste o seu oposto (o bom e o mau, o dia e a noite, a vida e a morte...). Um facto curioso acerca do zoroastrianismo é que também é conhecido como mazdaísmo (que vem de "mazda", de Ahura Mazda) ou como magismo, porque os seus sacerdotes se chamavam "magos". Portanto uma ideia acerca da origem dos "três Reis Magos"...

Foi precisamente em honra de Ahura Mazda que os governantes da primeira dinastia persa (os Aquemenides) construíram Persepolis, que servia como local de cerimónias religiosas e onde os governantes de outras nações vinham prestar os seus tributos aos reis.
A invasão de Alexandre, o Grande (século IV a.C.) ditou o fim da primeira dinastia persa e a destruição de Persepolis, que foi totalmente queimada (parece estranho numa cidade feita de pedra, mas a explicação é que as fortes colunas dos edifícios sustinham tectos de madeira que arderam e o calor produzido fez derreter as juntas de ferro que ligavam os blocos de pedra, conduzindo ao colapso das estruturas). Felizmente, depois desta destruição parcial, alguns terramotos soterraram parte daquilo que subsistia, preservando os magníficos baixos-relevos, que podem ser hoje contemplados por entre as ruínas da antiga cidade.


Várias são as representações destes baixos-relevos, estando o conjunto mais impressionante situado na escadaria do palácio de Apadana (em Persepolis existem vários palácios, mandados construir por diferentes reis da mesma dinastia, que se estendeu entre os séculos VI e III a.C.). Nesta escadaria estão representadas delegações de várias nações que se dirigem à principal entrada do palácio, com as suas respectivas oferendas ao rei. As figuras estão em perfeito estado e consegue-se distinguir a fisionomia dos representantes de cada civilização, vestidos com os trajes típicos da zona de onde era originários transportando presentes característicos de cada região do mundo. Simplesmente fabuloso! Reparem no pormenor...




Em Persepolis estão também os túmulos de alguns dos reis dessa primeira dinastia (os que não estão aqui estão espalhados por necrópoles em volta na mesma zona, que também se podem visitar).



Tivemos a sorte de visitar Persepolis com um guia que falava perfeitamente inglês e que, além de nos dar imensas explicações interessantíssimas sobre a história e cultura local, nos ofereceu chá e tâmaras secas (o snack habitual) e nos contou um pouco da sua vida como iraniano, o que nos fez pensar no Irão sob uma diferente perspectiva. A maioria dos ocidentais olha para um país como o Irão de uma forma um pouco redutora (e nada imparcial, tendo em conta a informação que nos chega), bastante diferente da realidade em que vivem os próprios iranianos (que na verdade estão pouco interessados no enriquecimento de urânio e assuntos afins... as suas preocupações diárias são talvez muito mais semelhantes às nossas do que aquilo que imaginamos). Eles próprios têm noção de que nós os olhamos com desconfiança quando de facto a maioria das pessoas que encontramos são cultas e extremamente correctas e honestas (muito diferentes de alguns líderes radicais com que os identificamos).

A visita a Persepolis faz-se habitualmente a partir de Shiraz, a cerca de 8 horas de autocarro a partir de Esfahan. Viajar de noite tem a vantagem de se conseguir chegar de manhã ao destino seguinte (com o dia todo pela frente), ganhando em tempo e poupando em hotel. O problema é que o dia seguinte nem sempre é fácil (excepto no Brasil, que tem uns autocarros maravilhosamente confortáveis para viagens de longo curso, nunca encontrei autocarros nocturnos em que conseguisse efectivamente dormir descansada).
Como a viagem Esfahan-Shiraz foi feita de noite, o primeiro dia em Shiraz não foi excepção e como consequência de andarmos quase sonâmbulos, perdemo-nos várias vezes por entre as ruelas labirínticas das casas feitas de adobe.
Apesar de tudo, conseguimos encontrar algumas das atracções, de entre as quais uma das mais fantásticas mesquitas que vimos no Irão – Nasir-ol-molk, cujo interior todo espelhado é surpreendente. Para visitar esta mesquita tive mesmo de usar um chador ("lençol" a cobrir da cabeça aos pés, levei um emprestado) e a entrada para as mulheres é separada (aliás, a própria mesquita é dividida em duas zonas separadas para mulheres e homens). Esta é a versão feminina portanto (mas é muito mais surpreendente do que isto, estava a todo o momento à espera que me mandassem guardar a máquina fotográfica porque era a única turista, por isso fiquei inibida...)



Em Shiraz encontra-se também o túmulo de um dos mais importantes poetas líricos persas – Hafez. É um local de culto para os iranianos, que se concentram nos jardins em volta do túmulo sobretudo ao final da tarde. Tentamos comprar um livro de poemas, mas a lojinha no local apenas vendia a versão em farsi. Para compensar, bebemos um café numa esplanada que fica no dito jardim.
Nos cafés iranianos (na verdade é raríssimo encontrar um bom café) o açúcar é servido em duas formas, absolutamente a não confundir: granulado e em cubos. Granulado é obviamente para o café e em cubos obviamente para o chá... Porquê esta diferença? A forma iraniana de beber chá é colocar um cubo de açúcar entre os dentes da frente e ir bebendo o chá, que vai ficando doce à medida que passa (quando o primeiro cubo acaba, trinca-se outro). No caso do café, o açúcar coloca-se na chávena directamente (inadvertidamente pedimos um açucareiro que tinha cubos de açúcar quando estávamos a beber café e o senhor olhou para nós completamente incrédulo e trouxe-nos outro açucareiro com açúcar granulado... como é óbvio!). Na recta final da visita ao Irão sentimo-nos quase aptos a passar no exame de bons costumes locais ;-)

7 comentários:

  1. É muito interessante brindares-nos com um pouco de história dos locais.
    Especialmente hoje um bom dia para ti.
    Bjs
    Tia Zé

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  2. Continuas nas mil e uma noites :-)
    bjs

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  3. Muitos Parabens pelo dia de hoje !!!
    Aproveita bem isso tudo e obrigado por partelhares com nosco :)
    xxx
    Joao (primo)

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  4. Estou a adorar os teus relatos e as lições de história. Fenomenal! E a foto dessa mesquita de tecto verde.... incrivel! Muitos, muitos beijinhos e continuação de boa viagem!

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  5. Oi Mariana!
    Queria-te dar um grande beijinho de Parabéns neste teu dia. Desejo-te muitas felicidades e votos de que esteja tudo a correr bem na tua viagem (pelas descrições assim parece:) ). BEIJINHOS. Catarina Gomes

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  6. Estamos a aprender bastante com os teus relatos. Mais beijinhos pelo dia de hoje. Marta (prima)

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  7. Miga linda sei que tou atrasada 2 dias...sorry...Bjo Grande de Parabens..

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